“Eu fui a Parintins para assistir ao Festival. Voltei entendendo por que ele existe.”
Essa talvez seja a maior diferença entre viajar como turista e chegar a um lugar com olhar de quem trabalha produzindo eventos.
Durante dias caminhei pela cidade, conversei com artistas, produtores, empresários, patrocinadores e profissionais que, há décadas, ajudam a construir um dos maiores espetáculos culturais do mundo.
A beleza do Festival impressiona. Mas o que mais me marcou aconteceu longe da arena. Foi entender tudo aquilo que faz o espetáculo acontecer. Foi descobrir que, antes de existir um boi entrando no Bumbódromo, existe uma cidade inteira trabalhando para que aquela noite aconteça.
E isso muda completamente a forma de enxergar Parintins.
Em uma das conversas que mais me impactaram, André Guimarães, diretor da Mana Produções — empresa responsável pela realização do Festival há 24 anos — compartilhou parte dessa construção.
Falamos sobre a evolução da captação de patrocínio, que hoje reúne dezoito grandes marcas nacionais, sobre o crescimento da profissionalização do evento e sobre um aspecto pouco conhecido por quem acompanha apenas as apresentações.
Segundo ele, existe um Carnaval do Rio antes e outro depois de Parintins.
Quando artistas amazônidas passaram a integrar as escolas de samba, levaram consigo novas técnicas construtivas, mecanismos de movimento, soluções cenográficas e uma linguagem artística que transformou definitivamente o espetáculo carioca.
Não foi apenas talento. Foi tecnologia desenvolvida na Amazônia. Foi conhecimento exportado. Foi economia criativa movimentando um dos maiores eventos do país.
PATROCÍNIOS
Como profissional de captação de patrocínio, outro aspecto chamou profundamente minha atenção. Em Parintins, as marcas não patrocinam apenas um evento. Elas assumem um compromisso com a narrativa. Escolhem um lado, respeitam a tradição e passam a fazer parte da história que está sendo contada.
Ali, uma Coca-Cola pode ficar azul. A Azul Linhas Aéreas pode voar de vermelho. O Bradesco muda a identidade visual de seus espaços. A Brahma conversa com as duas torcidas.
Tudo respeitando uma tradição centenária. Em muitos eventos vemos patrocinadores ocupando espaços publicitários. Em Parintins, as marcas ocupam lugares afetivos.
Elas deixam de interromper a experiência para fazer parte dela. E talvez seja exatamente isso que torne aquele ambiente tão poderoso. Não se trata apenas de branding. É pertencimento. É compreender que nenhuma marca consegue conversar com uma comunidade sem antes respeitar sua identidade.
Outra conversa igualmente reveladora aconteceu com Ney Marinho, diretor da Ecoart, empresa responsável por grande parte da estrutura do Festival.
Foi dele uma frase que resume perfeitamente a grandiosidade da operação: “Existem dois festivais.”
O primeiro acontece durante o dia. Enquanto muitos visitantes imaginam que tudo acontece apenas no Bumbódromo, Parintins vive outra programação paralela.
O Turistódromo reúne feiras de empreendedorismo, gastronomia, economia criativa, artesanato indígena, experiências culturais e espaços de convivência que mantêm a cidade em movimento durante todo o dia.
À noite, o protagonismo retorna ao espetáculo dos bois. É como se duas cidades coexistissem em um mesmo território: uma pulsa durante o dia; a outra ganha vida quando as luzes do Bumbódromo se acendem.
Por trás disso existe uma logística que desafia qualquer produtor.
Segundo Ney, a operação envolve cerca de 150 profissionais durante aproximadamente quarenta dias de trabalho entre preparação, montagem e desmontagem. Somente para a estrutura do evento são transportados vinte e um contêineres por via fluvial.
Na Amazônia, até a logística vira espetáculo. E talvez justamente por isso Parintins seja tão único.
Outro aprendizado veio da sustentabilidade. Conheci o projeto Recicla, Galera, iniciativa apoiada pela Solar Coca-Cola que transformou coleta seletiva em experiência cultural.
Ali, reciclar também faz parte da disputa entre Caprichoso e Garantido.
O descarte ganha narrativa. O resíduo ganha torcida. A sustentabilidade deixa de ser obrigação para se tornar participação.
Mais uma vez, a cultura encontra uma maneira própria de ensinar.
Voltei para casa convencida de que Parintins produz além de um festival. Produz profissionais, tecnologia, artistas, inovação, conhecimento e pertencimento.
Como produtora cultural, vivi dias que mudaram minha forma de pensar eventos. Vi uma cidade inteira entendendo que cultura não é custo. É investimento, desenvolvimento econômico, geração de emprego, identidade e futuro.
PARINTINS LAB
Foi dessa vivência que nasceu o Parintins Lab, uma formação construída a partir da imersão técnica que vivi na Amazônia e que agora compartilho com produtores culturais, gestores públicos, empreendedores, estudantes e profissionais da economia criativa. O projeto percorre Fortaleza (21 de julho), Ocara (22 de julho) e Horizonte (23 de julho), reunindo especialistas para discutir turismo, sustentabilidade, economia criativa, patrocínio e estratégias de desenvolvimento territorial, tendo o Festival de Parintins como referência metodológica.
Algumas viagens nos trazem boas lembranças. Outras nos trazem novos caminhos.
Parintins me trouxe uma nova forma de enxergar a cultura. E, sinceramente, acredito que nunca mais produzirei um evento da mesma maneira.
O Parintins Lab tem o patrocínio do Sebrae, Banco do Nordeste, Prefeitura de Ocara e Prefeitura de Horizonte; e o apoio de Doity, Visite Ceará, Amazonas Destination, IBRATURIS, Marson Eventos, Zoraide Braga Buffet e Juliet Cantora.
Por Lidú Figueiredo