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O homem que fez da educação uma missão: o legado de Oto de Sá Cavalcante

A educação brasileira perdeu, no último domingo (28), uma de suas maiores referências. Aos 80 anos, morreu Oto de Sá Cavalcante, diretor-presidente do Colégio Ari de Sá e um dos nomes mais influentes do ensino privado no país. Engenheiro de formação, educador por destino e líder por convicção, ele dedicou praticamente toda a sua vida à construção de um projeto educacional que ultrapassou os muros das salas de aula para impactar gerações de estudantes, professores e famílias.

 

Sua trajetória foi marcada pela discrição, pelo trabalho incansável e por uma visão que sempre esteve à frente do seu tempo. Acionista da Arco Educação, empresa que reúne sistemas de ensino utilizados por milhares de escolas, Oto nunca fez da expansão empresarial o centro de sua história. Em suas palavras, o que realmente importava era outra coisa: "A educação é uma vocação. É muito diferente tratar de uma escola e tratar de uma construtora."

 

Um destino moldado pelo pai

 

Em entrevista concedida recentemente, Oto contou que jamais imaginou trabalhar com educação. O sonho da juventude era outro: tornar-se engenheiro.

 

"Comecei meus estudos e não pensava em trabalhar com educação. Confesso isso. Mas o papai me colocou para dar aulas no colégio. Eu fazia Engenharia e comecei ensinando Matemática."

 

A morte precoce do pai, quando Oto tinha apenas 21 anos, mudou definitivamente sua história.

 

"Se não tivesse havido a doença do papai, talvez eu não tivesse entrado para o ramo da educação. Hoje eu sou um apaixonado por educação."

 

"A mamãe ficou viúva com 49 anos. Só fez trabalhar."

 

A força da simplicidade

 

Apesar de comandar um dos maiores grupos educacionais do Brasil, Oto nunca escondeu que os valores que nortearam sua vida nasceram dentro de casa.

 

Ele lembrava da infância marcada pela disciplina e pela austeridade.

 

"Lá em casa não tinha supérfluo. Era o básico. Não faltava alimentação, mas era o básico. Tinha que estudar. O papai era muito austero."

 

Também fazia questão de destacar o casamento dos pais como uma referência.

 

"Nunca vi uma briga dos dois. Nunca vi a menor discussão. Eles realmente formaram um casal maravilhoso."

 

Essa formação familiar ajudou a moldar aquele que se tornaria seu maior princípio de vida: acreditar que a família vem antes da escola.

 

Eu sempre digo aos pais que a família é mais importante do que a escola. A escola é um complemento.

 

Recomeçar do zero

 

Após décadas à frente do Colégio Farias Brito, uma divisão societária obrigou Oto a começar praticamente do zero.

 

Nascia o Colégio Ari de Sá.

 

Ele perdeu um dos nomes mais tradicionais da educação cearense, mas conservou aquilo que considerava mais importante: a confiança das famílias.

 

"Foi muito difícil. O pessoal dizia que eu estava lascado. Mas eu gosto de desafiar as dificuldades."

 

Antes mesmo de lançar a nova marca, fez questão de conversar pessoalmente com pais e alunos.

 

"Eu fui em cada sala de aula entregar uma carta explicando a situação. Só depois começamos a publicidade."

 

O resultado veio com o tempo.

 

A instituição cresceu, expandiu unidades e consolidou-se como uma das mais respeitadas do país.

 

Mesmo diante desse sucesso, Oto fazia questão de repetir:

 

"Se você for bem-intencionado e trabalhar, as coisas dão certo."

 

Educação antes dos números

 

Ao longo da entrevista, ficou evidente que seu olhar nunca esteve preso apenas aos resultados.

 

Quando perguntado sobre a quantidade de alunos, respondeu de forma espontânea:

 

Nós não queremos saber de número. Nós queremos saber de qualidade. Queremos ser uma escola de excelência.

 

Era essa busca permanente pela excelência que explicava sua satisfação ao ver alunos aprovados nos vestibulares mais concorridos do país, mas sem perder de vista aquilo que julgava essencial.

 

"Muito mais importante do que aprovar no ITA é formar bem o aluno desde o começo."

 

Para ele, educação nunca foi apenas ensino.

 

Era formação humana.

 

Humildade até nas maiores conquistas

 

Oto viveu momentos históricos.

 

Ajudou a transformar um sistema de apostilas criado dentro do colégio em uma empresa presente em milhares de escolas brasileiras.

 

Assistiu à abertura de capital da Arco Educação na Nasdaq.

 

Mas recusava qualquer ideia de missão concluída.

 

"Eu não gosto muito dessa história de realizado. Sempre tem mais."

 

Talvez essa frase explique boa parte de sua personalidade.

 

Mesmo reconhecido nacionalmente, permanecia inquieto, trabalhando diariamente e acreditando que ainda havia espaço para construir.

 

O maior patrimônio


Oto falou da mulher, Guida, como a verdadeira líder da família.

 

"Ela tem uma capacidade de amar extrema. O mais importante que ela tem é a fé em Deus."

 

Depois, refletiu sobre o maior legado que poderia deixar.

 

"A gente fica pensando: será que eu acertei? Será que eduquei bem? Hoje eles me deram essa resposta."

 

Naquele instante, o empresário deu lugar ao pai.

 

E o educador falou mais alto que o executivo.

 

Uma despedida que permanece em forma de ensinamento

 

O Ceará se despede de um dos homens que mais contribuíram para transformar a educação em instrumento de desenvolvimento social.

 

Milhares de estudantes talvez nunca tenham conhecido pessoalmente Oto de Sá Cavalcante, mas carregam em suas trajetórias parte do sonho que ele ajudou a construir.

 

Seu último recado aos jovens resume a filosofia que guiou sua vida inteira:

 

Amem o conhecimento. Procurem fazer alguma coisa bem feita na vida. Nós pais não devemos impor uma profissão aos filhos. Eles é que têm que escolher. Agora, eles têm a obrigação de amar o conhecimento e fazer alguma coisa bem feita.

 

Mais do que um conselho, foi uma síntese de sua existência.

 

Porque Oto de Sá Cavalcante não será lembrado apenas pelos prédios que ergueu, pelas escolas que fundou ou pelas empresas que ajudou a criar.

 

Será lembrado, sobretudo, por acreditar que educar era o caminho mais seguro para construir um futuro melhor.

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