
FORÇA DA MULHER
Em Fortaleza, as ruas ganharam um símbolo de resistência, união e empreendedorismo feminino. Nos carros que circulam pela cidade, um adesivo chama a atenção de passageiros e motoristas: Divas do Asfalto. Por trás dele, está uma história de coragem, liderança e solidariedade que começou com uma mulher que decidiu transformar uma dificuldade em oportunidade.
Aos 44 anos, Rosa Moura é a fundadora e principal articuladora do grupo, que hoje reúne cerca de 200 mulheres motoristas de aplicativo na capital cearense. Mais do que uma rede de trabalho, o coletivo se tornou uma verdadeira comunidade de apoio entre mulheres que enfrentam diariamente os desafios da mobilidade urbana.
“Há 12 anos, quando me vi desempregada e o único bem que tinha dentro de casa era um automóvel, foi quando resolvi virar 'Táxi Amigo', na época em Fortaleza, bem antes da Uber”, relembrou.
Antes dos aplicativos, uma decisão que mudou tudo
A história começa em um momento de incerteza. Sem emprego e com poucas alternativas, Rosa decidiu usar o único recurso que tinha: o carro da família.
“Eu virei Táxi Amigo, fiquei fazendo as corridas através da central que tinha na época. Logo depois veio a Uber, foi quando eu entrei para a Uber”, conta.
No início do aplicativo na cidade, a presença feminina ainda era pequena.
“Participava de grupos que tinham homens e mulheres, e a adesão das mulheres era bem pouca na época”, lembra.
Foi nesse contexto que Rosa conheceu um projeto que buscava reunir motoristas mulheres: o Divas For, um aplicativo que chegou a funcionar em Fortaleza, mas não conseguiu se consolidar.
“Eu entrei no grupo chamado Divas, que tinha um aplicativo em Fortaleza. Era um aplicativo muito bom, mas não vingou em Fortaleza”, diz.
Quando o projeto acabou, Rosa decidiu fazer algo por conta própria.
“Saí do grupo Divas e resolvi criar o grupo da Rosa. Foi quando eu criei o grupo Divas do Asfalto”.

E virou referência
O que começou como uma iniciativa simples cresceu rapidamente e ganhou visibilidade dentro e fora do Ceará.
“Hoje, o grupo Divas do Asfalto é reconhecido nacionalmente, é um grupo conhecido em Fortaleza e no Ceará”, afirma Rosa.
O diferencial está na organização e na identidade visual que virou marca do coletivo.
“É bem organizado, onde as meninas trabalham com blusas, com os carros adesivados, e a gente tem muito reconhecimento por parte da população e também por parte da mídia”
Segundo ela, o grupo acabou se tornando uma referência quando o assunto é mobilidade urbana e o trabalho feminino no transporte por aplicativo.
“Quando tem muitas entrevistas falando da parte da mobilidade urbana, a gente sempre é procurada. Já saímos em alguns programas nacionais também”
Para quem anda pelas ruas da capital, a presença do grupo é fácil de identificar.
“Eu acredito até que vocês já tenham visto aquele adesivo no carro ‘Divas do Asfalto’”, comenta.
Uma rede que acolhe e protege
Hoje, o grupo reúne cerca de 200 motoristas, mas o que realmente define o Divas do Asfalto não são os números – e, sim, o espírito de união.
“A cada três meses, a gente tem um 'encontrão', que é uma reunião geral, onde a gente passa informações sobre mudanças nos aplicativos, leis de trânsito e locais que estão mais em risco ou não”, explica Rosa.
Além dos encontros periódicos, o contato entre as motoristas acontece diariamente.
“Todo dia, as meninas se encontram para trocar ideias, para incluir meninas novas”, conta.
E o apoio entre elas vai muito além da conversa.
"Se uma está no 'prego' na Varjota, mas uma está na Parangaba, ela sai da Parangaba para ir ajudar quem está na Varjota. E assim em qualquer outro bairro”
Essa solidariedade criou um vínculo que ultrapassa o trabalho.
O grupo é muito unido, muito focado. Graças a Deus, a gente já está aí há sete anos.

Muito além de um grupo de trabalho
Para Rosa, o Divas do Asfalto deixou de ser apenas um coletivo profissional e se transformou em algo maior.
“O Divas já é a minha família”, diz.
Esse espírito ficou ainda mais evidente durante a pandemia de Covid-19, quando muitas motoristas viram sua renda cair drasticamente.
“Na pandemia, nós praticamente fomos um dos poucos grupos de Fortaleza que conseguimos ajudar”, afirma.
Rosa conta que decidiu mobilizar empresários e empresas para ajudar as integrantes.
"Bati na porta de vários empresários e redes de supermercado para montar cesta básica para elas na pandemia”
O resultado foi uma grande mobilização solidária.
“A gente conseguiu, graças a Deus, doar para praticamente quase todas do grupo na época da pandemia”
Parcerias e benefícios
Além do apoio emocional e profissional, o grupo também construiu uma rede de benefícios para as motoristas.
“A gente também tem parcerias. Sempre estou buscando parcerias de desconto para as meninas”, explica Rosa.
Entre os parceiros, estão oficinas mecânicas, restaurantes e profissionais de saúde.
“Elas têm descontos em oficinas, em restaurantes, em psicólogas e em vários outros estabelecimentos”
Segurança e organização
Um dos pontos mais importantes do grupo é a segurança das motoristas.
Segundo Rosa, existe toda uma estrutura de acompanhamento e comunicação entre as integrantes.
A gente sempre busca ferramentas de segurança para dar suporte às meninas.
Ela própria mantém contato constante com o grupo.
“Tem canais onde a gente faz suporte de monitoramento, para eu estar falando com elas 24 horas por dia”, explicou.
Hoje, a gestão do coletivo também conta com uma equipe de apoio.
“Hoje, eu conto com seis ADMs, que são seis meninas que me ajudam nesse trabalho interno do Divas.”

Um projeto que chegou à política
O impacto social do Divas do Asfalto acabou levando Rosa para um novo caminho: a política.
“Eu entrei na política também através do próprio Divas”, conta.
Segundo ela, o reconhecimento pelo trabalho com o grupo foi decisivo.
"Entrei justamente por ser considerada uma mulher empreendedora, por ter criado esse grupo e ele ter se desenvolvido muito rápido”
E o vínculo entre a liderança política e o coletivo continua forte.
Um sonho que continua crescendo
Mesmo após sete anos de existência, o grupo não pensa em parar.
A gente não tem meta de parar o Divas. A meta é crescer cada vez mais e dar suporte cada vez mais.
Hoje, ela já não dirige com tanta frequência, mas segue totalmente dedicada à organização.
"Praticamente não rodo mais na Uber, mas continuo com o meu grupo, continuo dando suporte e quase todo dia encontro as meninas para dar algum feedback”
Como entrar para o grupo
Com a visibilidade e a reputação conquistadas ao longo dos anos, muitas mulheres procuram o Divas do Asfalto em busca de apoio para começar na profissão.
“A busca é muito grande pelo próprio Instagram do grupo Divas do Asfalto Fortaleza”, explica Rosa.
Mas a entrada no coletivo segue regras rigorosas.
“Por questão de segurança das próprias motoristas que já estão no grupo, a gente só adiciona uma nova parceira quando encontra com ela pessoalmente e vê o aplicativo dela de motorista”
O processo de integração é sempre presencial.
“Antes disso, a gente não coloca no grupo. Só coloca quando tem um encontro pessoal”
As divas que movem a cidade
Entre corridas, encontros, desafios e conquistas, o Divas do Asfalto se consolidou como um exemplo de organização feminina no transporte por aplicativo.
Para Rosa Moura, a essência do grupo está no que ele representa para cada integrante.
“Não é só mais um grupo. O Divas é o grupo”
E enquanto houver mulheres dispostas a ocupar as ruas de Fortaleza com coragem e solidariedade, as Divas do Asfalto continuarão acelerando – juntas.