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Misturando saxofone e música eletrônica, Chris Live Sax tem mais de 40 anos de história com a música

O músico conversou com a Frisson sobre sua trajetória e sua paixão pela música, que vai além do saxofone e encontra outros instrumentos. Confira a entrevista

Foto: Lino Vieira

Foto: Lino Vieira

Com 33 anos de carreira musical e investindo em novos ritmos, o músico Christian Pinheiro, conhecido como Chris Live Sax, natural de Mossoró, traz o saxofone na história. Filho do maestro Dermival Pinheiro, o artista chegou em Fortaleza aos 18 anos, em 1993, e, desde então, vem reinventando gêneros junto ao instrumento. 

O músico conversou com a Frisson sobre sua trajetória e sua paixão pela música, que vai além do saxofone e encontra outros instrumentos. Confira a entrevista: 

Frisson: Pode nos contar o seu encontro com a música? Quando e como foi? Qual a sua primeira lembrança em relação aos instrumentos musicais? 

Chris Live Sax: Nasci em 13 de dezembro de 1973, na cidade de Mossoró, Rio Grande do Norte. Iniciei na música ainda quando criança, não lembro de minha idade exatamente, talvez 5 anos, não mais que isso. Fazia parte do meu dia-a-dia ver e ouvir meu pai na sala de nossa casa tocando músicas, tais como Summertime e Um americano em Paris (George Gershwin). Me lembro até hoje, posso dizer que foi aí que tudo começou.

Frisson: Seu pai era maestro e saxofonista, certo? Como ele influenciou na sua escolha de carreira musical?

Chris Live Sax: Meu pai, o saudoso Maestro Dermival Pinheiro, se tornou um grande ícone da música de Mossoró. Ele era muito especial, exímio saxofonista, maestro e compositor,.Não foi à toa que meu trabalho de conclusão de curso na Universidade Estado do Ceará, em Música, foi sobre sua história e legado. Sua trajetória na música perpassa inclusive por Fortaleza, quando o mesmo chegou a fazer parte da orquestra do lendário Mozart Brandão, na época da antiga rádio PRE-9, lá pela década de 50. Ele era o cara (risos) chegou a dirigir quatro bandas de músicas por décadas, sem deixar a batuta cair. Eu era o chaveirinho dele, sempre que possível o acompanhava nessa maratona de trabalho.

Fisson: O saxofone sempre foi sua primeira opção? Que outros instrumentos você domina? 

Chris Live Sax: Não, eu adorava os instrumentos percussivos. Comecei mesmo tocando pratos na bandinha do Sesi, e já chamava atenção porque sempre fui muito dedicado. Para mim, apesar de ser um instrumento menosprezado pela maioria, aqueles era o instrumento mais importante da banda, e eu mandava bem viu!

Frisson: O que te atraiu no saxofone? Qual o diferencial dele para outros instrumentos e quais tipos de saxofone você domina? 

Chris Live Sax: Apesar de ter tocado vários instrumentos, como pratos, requinta, clarinete, entre outros, foi o sax minha maior paixão. Um belo dia, parei de brincar de tocar, e fui me dedicar ao saxofone. Me tornei solista de todos os grupos que integrei posteriormente. Era fácil para mim, natural sabe? o sax e eu éramos praticamente um só. Vivia praticando, quando não estava na escola, eu estava com o instrumento.
 
Frisson: Quando você chegou em Fortaleza? E como foi suas primeiras experiências musicais aqui?
Chris Live Sax:Casei muito cedo, com apensas 17 anos. Aos 14 eu já era meio que dono do meu nariz, já nessa idade eu era empregado da prefeitura de Mossoró como músico, de carteira assinada e tudo. Então tudo foi muito rápido na minha vida. Aos 18, Mossoró parecia pequena para mim. Eu já tocava na noite também e me tornei conhecido por lá, então decidir me mudar para um lugar maior. Nessa época de minha vida, eu tocava também como funcionário no hotel Thermas e conheci uns cearenses que estavam hospedados. Eles me falaram sobre Fortaleza e isso me motivou a vim para cá. 
Me mudei para Fortaleza em 1993, vim com a mala cheia de sonhos, já que não possuía sequer um carro, então tudo foi desafiador. Mas, por outro lado, peguei a cidade numa época áurea. Cheguei a tocar muito tempo nos antigos: Sandra´s restaurante, Caesar Park Hotel, Othon Palace, Shopping Aldeota, bem como no Marina Park, chegando até participar do programa de TV Perspectiva do Arnaldo Santos, TV Jangadeiro. Mas minha primeira experiencia em Fortaleza, eu ainda não morava aqui. Meu tio Sidney, que residia aqui na época, conseguiu junto ao Coronel Botelho para eu me apresentar no Náutico com o grupo que eu havia formado com músicos de Mossoró. Foi um fiasco, porque a banda em si não agradou muito. Eles tinham que segurar a noite até minha entrada, mas a coisa não fruiu bem e eu tive que assumir o palco as pressas. Entretanto eu me virei bem, e acabou dando certo.

Frisson: Você é formado em Música - Saxofone pela Uece, certo? Como ter a base teórica te ajudou a aprimorar sua música? 

Chris Live Sax: Na verdade, eu fui para universidade para me sentir mais completo, sabe? Não esperava aprender a tocar sax por lá, ou até mesmo aprimorar minha técnica. No dia do teste de aptidão, o professor que estava coordenando, quando me viu, se negou a testar meus conhecimentos como saxofonista. Ele já me conhecia, e foi engraçado, porque ele abriu a porta da pequena sala na qual estávamos e disse para os outros que aguardavam ser chamado: “Gente, o Christian vai tocar uma música para vocês enquanto eu vou tomar uma água” (risos). Mas eu posso dizer com certeza que sim, enriqueci meus conhecimentos, principalmente nas áreas da composição e harmonia, a que devo aos professores Márcio Landi e Márcio Resende respectivamente. 

Frisson: Você também já se apresentou nos Estados Unidos. Pode contar como foi essas temporadas?

Chris Live Sax: Minha primeira vez nos Estados Unidos aconteceu em 1999, eu tinha acabado de produzir meu primeiro álbum, “Tocando Para o Mar” patrocinado pela Pague Menos. Fui convidado por um radialista de Orlando chamado Alberto Rojas, que na época tinha vindo a Fortaleza encontrar uma conhecida minha com quem acabou casando. Ele fazia parte da organização de um festival de música chamado “Lake Eola Park Festival”. Fui, mas não gostei muito, porque não era o típico lugar americano que esperava conhecer. Não tinha o jazz que eu queria vivenciar. Todavia, mais tarde, em 2004, quando eu retornei agora para Salt Lake – Utah, finalmente eu vivi tudo que eu ansiava experienciar. Cheguei inclusive a formar um grupo, um quarteto com músicos americanos e me apresentei na principal casa de jazz de lá, chamada Zanzibar house of jazz. Recebi o convite do próprio dono do lugar, após o mesmo me assistir dando uma canja numa noite em que me encontrava 'iluminado', por assim dizer.

Aconteceu que eu fui convidado por um amigo violonista chamado Biba, com o qual eu acabara de me apresentar num restaurante brasileiro, a ir conhecer uma típica casa de jazz americana. Quando lá chegamos fomos barrados pelo seguranç, que por sua vez ao me ver com meu saxofone, alegava não ser permitido dar canja, uma vez que a noite estaria reservada para o show de uma cantora local. Então vendo aquela situação, o baixista chamado Wil que se aprontava para tocar, veio até a porta e convenceu o segurança a me deixar entrar com o instrumento. Ao iniciar o show, Angela, pois era esse o nome da cantora, coincidentemente canta “Garota de Ipanema” (Tom Jobim), e a turma que estava comigo na minha mesa se empolgou e começou a cantar junto. Ao término da canção, o baixista Will sussurrou ao ouvido de Angela que eu era músico e tocava sax. Ela por sua vez veio até mim e perguntou: "você gostaria de tocar uma música conosco?". Ora, eu já estava feliz por vivenciar aquele clima que até então só vira em filmes do gênero, respondi na lata que sim, adoraria. Montei o sax e, após ela me anunciar, tocamos juntos “Insensatez”, de Tom Jobim. Eu estava muito inspirado naquela noite, todos ali no quarteto dela, tocavam muito bem, e isso mexe comigo, sabe? Gosto de tocar com quem é melhor que eu, aí eu vou, vou com tudo mesmo. Ao término da canção, eu fui tão aplaudido em meu solo que ela não me deixou sair do palco mais. Foi incrível mesmo tocamos de tudo, principalmente jazz americano. Sabe, as vezes eu vejo de artistas que vão tocar nos Estados Unidos, mas para um público brasileiro, eu me orgulho de dizer, fui tocar lá para os americanos, porque não é o lugar em si, mas as pessoas e sua cultura que vai fazer diferença no final.  

Ainda retornei para lá em 2007, afim de divulgar meu quarto álbum intitulado “christmas mood”, ocasião em que fui convidado a dar um workshop para os estudantes de saxofone da BYU University sobre música brasileira e a compartilhar das minhas experiencias no jazz. 

Frisson: Você agora se apresenta junto a música eletrônica. Mas como começou a tocar nesse gênero? 

Chris Live Sax: A música eletrônica surgiu quando fui convidado pelo DJ Germano, que tocava no Colosso, para fazer uma participação em um sábado. Fui meio desconfiado, já ouvia falar de músicos tocando com Dj, mas francamente não tinha idéia e nem tinha expectativas quanto ao assunto. Mas fui assim mesmo. Quando entendi que existe espaços nas remix que dá pra gente fazer solos e improvisar, vi que ali eu estaria em casa, por assim dizer. Sou um cara do jazz, da improvisação, pop, porque gosto de mexer com o público. Aí já viu, né? Foi sucesso total, passei a me apresentar com outros Djs e com tempo fui construindo meu nome até passar a ter meus próprios contratos. Atualmente sou acompanhado principalmente pelo DJ Lorenzo.

Frisson: O que te atrai na mistura do eletrônico com o saxofone? Pode explicar as suas sensações e percepções? 

Chris Live Sax: Me atrai o lance da improvisação, da interação com o público, liberdade, e acima de tudo, é um desafio você entrar numa música já pronta e ali construir uma nova história.

Frisson: Em relação à pandemia, como tem sido a adaptação dos eventos musicais? 

Chris Live Sax: A pandemia bagunçou muito as agendas. Eu particularmente não entrei muito naquelas das lives, acho que ficou chato até certo ponto. Preferi me resguardar. Mas, felizmente, as coisas estão voltando, aos poucos, mas vai dar certo! Sinto-me feliz em poder levar alegria e descontração para as pessoas por meio de minha musica!

Frisson: Você também já tem um single preparado. Pode explicar do que se trata e como foi a construção do single? 

Chris Live Sax: Meu single da "Pantera Cor de Rosa” tá prontinho, e jajá lançaremos. Eu produzi e gravei com parceria do músico e produtor Marcus Vinnie, amigo e parceiro de longas datas.

Frisson: Atualmente, onde você se apresenta e quais têm sido as adaptações para as apresentações?

Chris Live Sax: Atualmente me apresento fixo, o que chamamos de residência, no Santuário das Águias, um lugar muito bacana, muito adequado pro momento de pandemia que atravessamos, pois lá é aberto e favorece. Tem sido meu QG, sou bem tratado demais pela diretoria e tenho sido muito prestigiado pelo público de Fortaleza. Espero que logo possamos passar totalmente esse momento, perdemos muito com tudo isso, mas certamente haveremos de vencer!

 

 

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