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Há que se ultrapassar o rumor caótico de um existir anônimo: uma existência sem existente


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Em tua vida, tu podes ser mediação de um projeto, momento de uma totalidade, mesmo sob os olhares da janela dos outros, lugar de onde te olham sem alteridade alguma. Tu, enquanto outro de teu próximo, podes ser negado em tua alteridade. O mesmo, de ti para o outro, pode acontecer também. Quando assim o fazes, o outro é negado em sua alteridade e afirmado em sua diferença, a partir do sentido que recebe, em função de um papel, num contexto social (in)conscientemente negado ou afirmado.

Dessa experiência, conclui-se que o existente que dá sentido aos entes no mundo está numa impessoalidade, árida, neutra, que somente pode ser superada no ser-para-o-outro, como momento ético de respeito à Alteridade.

Como ser, então, para o outro? Primeiramente, pela experiência que faz o existente sair de sua condição de impessoalidade frente ao destino do outro, por sua presença. Há que se ultrapassar o rumor caótico de um existir anônimo: uma existência sem existente (o humano como um nada, como um objeto, um dado, posto no mundo sem um para quê). Há que se sair deste lugar de quem só vê e não quer enxergar. Também não basta contar, enumerar, descrever o que há. Os que assim procedem empobrecem a relação, por reduzir toda a grandeza que há na pessoalidade do outro a um conceito sob o domínio do ser.

A consciência, pois, de uma determinada situação não abre nada mais além do mesmo, daquilo que é posto, do que dado de realidade ali presente. Saber o que se tem de fazer, muito já pensaram e muito sobre isto dissertaram. Essa forma discursiva, resultante de uma “tomada de consciência” é reversiva de si para si, tão intelectiva quanto estéril, é “universitéria”.

Para romper a clausura deste haver impessoal, não basta pôr-se como consciência que pensa, pois o pôr-se a si mesmo e por si mesmo é ainda a imanência do mesmo na condição impessoal.

Para sair desse círculo, há que o sujeito depôr-se, e a única alternativa que resta para tanto é ser-para-o-outro: "a deposição da soberania pelo eu é a relação social com outrem des-inter-essada" (Levinás), que etimologicamente aponta à situação de estar fora do ser e de seus domínios. Ser para o outro significa a responsabilidade ética por ele, que permite ao eu superar o rumor anônimo e insignificativo do ser. Este é o tempo.

O sentido da existência e sua duração passam pela relação com o outro. Relacionar-se com o outro, não é tematizá-lo, tomá-lo como objeto de conhecimento ou comunicar-lhe um conhecimento. Ora, se podemos comunicar a existência pela palavra, mas não podemos partilhá-la ao âmbito do saber, que tipo de participação com o ser pode nos fazer sair da solidão? A alternativa se encontra na socialidade, que confere uma nova significação ao tempo. "O tempo não é uma simples experiência da duração, mas um dinamismo que nos leva para outro lado diferente das coisas que possuímos. Como se, no tempo, houvesse um movimento para além do que é igual a nós. O tempo como relação com a alteridade inatingível e, assim, interrupção do ritmo e dos seus giros." (Levinás)

Por padre Airton Freire
@padre_airton

 

 

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