Apesar de efeitos negativos, pandemia deixa legado de solidariedade, dizem líderes comunitários

THIAGO AMÂNCIO - SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Apesar de pessimistas com o legado negativo de alto desemprego e fome que a pandemia da Covid-19 pode deixar, líderes de comunidades pobres país afora se dizem esperançosos com a solidariedade criada nesses lugares após a chegada da doença.

É o que aponta levantamento feito entre 17 e 30 de agosto pela Rede de Pesquisa Solidária, que monitora as respostas à Covid pelo país. É a quarta rodada de uma enquete feita com 64 lideranças comunitárias nas regiões metropolitanas de Manaus, Recife, Belo Horizonte, Rio, São Paulo, Distrito Federal, Campinas (SP), Salvador, Joinville (SC) e Maringá (PR). "Quando perguntamos sobre perspectiva para o futuro, houve essa percepção de que a pandemia gerou engajamento, foi uma surpresa para nós. Por um lado, é efeito de uma constatação negativa: as pessoas se sentiram abandonadas e aprenderam que tiveram que se reestruturar para reagir à pandemia", diz Graziela Castello, diretora-administrativa e pesquisadora do Cebrap. "Moradores que não tinham história de associativismo, relação com sindicato, com partido, começaram a se organizar. Dos entrevistados, 16%, acham que gerou algum tipo de consciência política na população e que a gestão da pandemia provocou a necessidade de avaliar o governo, pensar nas eleições. Dentro do cenário de abandono completo, talvez tenha impacto positivo de maior prática de cidadania política", continua.

O principal problema apontado pelas lideranças, no entanto, ainda é a segurança alimentar: 62% dos entrevistados disseram se preocupar com a fome provocada pela pandemia. A falta de trabalho também foi citada por metade dos ouvidos. Uma outra questão despontou no último questionário feito: a preocupação com a educação. Um em cada cinco entrevistados citou a volta às aulas como um dos problemas mais críticos atualmente.

E aí os líderes se dividem: parte deles se preocupa que o retorno das crianças às escolas possa aumentar a contaminação dentro das comunidades; outra parte se preocupa com o pouco acesso das crianças e adolescentes a ferramentas de ensino remoto, prejudicando a aprendizagem. "Os familiares são terrivelmente contra o retorno às aulas, mesmo porque se trata de um governo e de um prefeito que não investiu na saúde, não fez um investimento na preparação da volta às aulas, nas salas de aula. Segundo, o governo e o prefeito lá vão colocar um frasco de álcool em gel e um ventilador para fazer a ventilação, e [afirmam que] isso é o suficiente para espantar o vírus. A gente sabe que precisa de um investimento muito maior do que isso", diz um entrevistado do Tucuruvi, zona norte de São Paulo.

"As famílias não têm internet, telefone, computador em casa. E as crianças estão sem estudar, sem escola. E devido a essa situação elas ficam em casa sem fazer nada. Tem mães analfabetas que não sabem explicar e ajudar nas atividades, ficou muito difícil nas comunidades", diz outro na Brasilândia, também em São Paulo.
Para Castello, "a diversidade de opiniões mostra o drama que é gerenciar essa situação", diz. "De um lado, tem o medo da volta às aulas, do impacto nos parentes mais velhos, a preocupação de que as escolas não estão preparadas para voltar. Do outro lado, as lideranças apontam deficiências cognitivas, depressão nas crianças, todo esse processo que o distanciamento tem gerado.""As duas coisas são muito perversas. Os pais lidam com o medo da volta e com a impossibilidade da manutenção em casa", diz a pesquisadora.

A Rede de Pesquisa Solidária reúne dezenas de pesquisadores de instituições públicas e privadas, como a USP, o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e a Fundação Getulio Vargas (FGV). Desde abril, eles têm produzido boletins semanais, que estão disponíveis no site da iniciativa.

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