
A entrevista da semana desta coluna tem cheiro, tem sabor e tem carinho. Por trás do sucesso de Anna Paula Doceria, está uma carioca que adotou Fortaleza pelo coração e, após uma viagem, apresentou por aqui novidades que conquistaram o público cearense na gastronomia. A seguir, Anna Paula Rezende resgata sua história, analisa seu sucesso e projeta o futuro de sua empresa. Confira:
É verdade que você não nasceu aqui?
Sim. Sou “cearoca”, cearense de coração. Eu já até falo “vamos botar boneco”, “vamos arrodear”, “bora rebolar no mato” (risos). Estou brincando, claro. Eu não falo nada disso não.
Como foi sua vinda aqui para Fortaleza e como foi que tudo começou na Anna Paula Doceria?
Olha, eu vim para Fortaleza há mais ou menos uns 15 anos. Vim em busca de qualidade de vida. Na época, o Rio de Janeiro estava muito violento. E nós queríamos sair do eixo Rio-São Paulo. Tínhamos morado em São Paulo, porém não tínhamos gostado também. Aí, decidimos vir para o Nordeste. Meu marido é piloto e, para ele, não fazia tanta diferença. Viemos para cá em busca de qualidade de vida. Quando chegamos aqui, fizemos um grupo de amigos de fora, óbvio. Afinal, os forasteiros se juntam, né? E aí, aquela história de um ir para a casa do outro e levar sempre alguma coisa para comer. Nisso, o que eu sabia e sei fazer é doce. Então, sempre me cabia levar as sobremesas para os almoços, jantares, encontros, enfim. E uma bela vez, eu indo de férias com a família no Rio para matar as saudades dos familiares, e minha tia estava fazendo pão de mel. Eu sou louca por pão de mel. E o pão de mel no Sul tem uma tradição muito grande. Quando eu comecei a colocar o pão de mel aqui, criou uma certa resistência porque não é o hábito do cearense, é uma coisa mais do Sul. Aí, eu pedi essa receita à minha tia, ela disse brincando que não ia me dar, mas me deu, óbvio. E eu voltei para cá na época da Copa do Mundo, minha casa estava cheia de adolescentes, e eu acabei começando a testar as receitas todas para eles. E um dos amigos da minha filha falou que eu deveria comercializar. Eu disse que não, “que comercializar o quê”. Até que ele me falou: “ah, não vai comercializar não?”. E ele começou a levar para a mãe, para a avó, para as tias. De repente, as pessoas começaram a me telefonar fazendo encomendas. E foi dessa forma que surgiu a minha história na confeitaria profissionalmente falando.
Como o cearense reagiu às mudanças e novidades?
O cearense amou minha contemporaneidade. Na época que eu montei a minha primeira loja, meu marido e minha filha são mais conservadores e disseram “ah, meu Deus, lá vai ela inventar uma loja preta e um bando de doce de flor, que ninguém vai comer, faça brigadeiro, faça brownie”. Aí eu disse que não. Mas acabei fazendo brigadeiro e brownie, mas não vendeu um, mofou tudo, joguei tudo fora. Por que? Porque as pessoas queriam o que era diferente. Outro dia mesmo, uma senhora estava lá na loja se deliciando com um doce de lavanda.
De lavanda???
É, de lavanda mesma. Não estranhe! E essa cliente me falou “nossa, que delícia, está me perfumando por dentro”. Então, é mais ou menos essa sensação que a gente quer passar para as pessoas. Do novo, do diferente, e não daquilo que é o dia a dia. E a gente está conseguindo, do nosso jeitinho, mostrar isso para as pessoas.
Você está sempre presente, atendendo, servindo, interagindo com os clientes...
Exatamente. Grandes clientes acabaram virando grandes amigos pelo fato de eu gostar muito disso aqui, de estar muito presente. Certa vez, um amigo estava falando sobre a possibilidade de a gente expandir a loja. E ele me disse: “Anna, olha só, se você focar apenas na produção ou apenas no atendimento, seu negócio morre, você precisa conciliar as duas coisas”. Então, eu preciso estar de olho no que é feito e também preciso estar na loja atendendo, conversando e junto ao meu cliente, que, muitas vezes, vem para conversar, colocar o papo em dia. E, assim, é tudo muito novo para alguns clientes. Embora já tenha um certo tempo, ainda é muito novo para muita gente, entendeu?
Sim, claro.
Então, o sanduíche não é um sanduíche, é um “chuduíche”, entendeu? É um sanduíche diferenciado. Minha essência, como eu sempre digo, é doce. Mas eu tenho que ter o salgado para pagar minhas contas, né? Estou falando agora pelo lado empresarial. Só que, se eu oferecer um sanduíche muito pesado, com o pão convencional, o público vai comer e não vai aguentar saborear o doce, pois eu quero que ele coma o salgado e o doce. Aí, nisso, a gente coloca a nossa contemporaneidade aí.
Anna, para finalizar, o que podemos esperar da Anna Paula Doceria nos próximos anos?
Olha, provavelmente, muita expansão, afinal já estamos recebendo propostas até de abrirmos franquias em outro país, mas tudo, como eu disse, ainda é apenas conversa que precisa ser amadurecida e evoluída.















