Rogério Leão, o médico da reprodução humana em São Paulo
Em entrevista exclusiva para a Coluna Frisson, o doutor fala de sua especialidade e dos seus sonhos
Graduado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Rogério Leão é especializado em Endoscopia Ginecológica e em Infertilidade Conjugal. Além de especialista em Ginecologia e Obstetrícia. Apaixonado pela profissão, ele conversou com a Frisson sobre o seu trabalho, que, na maioria das vezes, proporciona aos casais a realização do sonho de ter um filho, o que torna seu ofício algo apaixonante.
Quais as influências que o Sr. teve para decidir por ser médico dedicado, principalmente, à reprodução humana?
Durante a graduação e residência médica, uma coisa que me impressionava muito era como é forte o desejo de ter filhos nas pessoas e como a dificuldade em realizar esse sonho causa sofrimento para elas. Há casais que sofrem mais por não conseguir ter filhos do que por ter alguma doença. E vê-los realizar este sonho é muito gratificante. Isso torna trabalhar com reprodução humana algo apaixonante. Além disso, é uma área que vêm avançando muito, mas que ainda tem muito o que aprendermos, o que torna bastante desafiador e fascinante.
O Sr. atende muitas mulheres que sonham em ser mães? Quais casos o Sr. considera mais complicados nesta área?
O maior problema dos dias de hoje é a idade avançada da mulher. Com o crescimento da participação feminina no mercado de trabalho, muitas mulheres priorizam a carreira em prol da realização profissional e acabam procurando a gravidez mais tarde, muitas vezes ao redor dos 40 anos. Além disso, a mulher moderna chega aos seus 40 anos muito bem fisicamente e muitas iniciam relacionamentos nessa idade, sendo natural que muitas desejem vivenciar, pela primeira vez (ou novamente), a maternidade com uma idade mais avançada. O grande problema é que a fertilidade da mulher tem uma queda progressiva ao longo da vida, acentuando-se após os 35 anos e, principalmente, após os 40 anos. Isso ocorre porque a mulher tem um número finito de óvulos. Quando iniciam seus ciclos menstruais, as meninas têm cerca de 300 mil óvulos disponíveis. A cada mês, geralmente só um óvulo chega à maturidade (ovulação), mas cerca de mil são perdidos, reduzindo progressivamente a reserva ovariana, ou seja, o estoque de óvulos disponíveis. Além de uma redução na quantidade, com o passar dos anos, há um envelhecimento dos óvulos, com queda em sua qualidade, diminuindo a chance de serem fertilizados e aumentando os riscos de abortamentos e alterações cromossômicas, como Síndrome de Down. Com as técnicas de reprodução assistida, já é possível gravidez com idade avançada. Mas, quando os óvulos já se esgotaram, ainda não temos como recuperar o ovário. Gravidez nestes casos só é possível com óvulos doados.
Quais são os principais problemas que impedem uma mulher de ser mãe? Quais os mais comuns, por exemplo?
Os problemas mais frequentes são: problemas tubáreos (quando, por algum motivo, as trompas são obstruídas, geralmente por infeções pélvicas prévias); problemas ovulatórios (mulheres que não ovulam espontaneamente, como Síndrome dos ovários policísitcos); endometriose (uma doença em que o tecido de revestimento interno do útero se implanta fora do útero, causando uma reação inflamatória que pode levar a distorção da anatomia pélvica e dificuldade de engravidar, além de muita dor); idade materna avançada, levando à diminuição na quantidade dos óvulos e qualidade); fator masculino, com alterações no sêmen por diversas razões.
O Sr. trabalha em uma equipe renomada em reprodução humana. Isso traz prestígio para o Sr. na área?
Acho essencial na minha área você estar ligado a um centro grande de reprodução, com laboratório de excelência. A parte laboratorial é essencial para o sucesso do tratamento. Além disso, um centro de prestígio acaba atraindo casos difíceis que muitas vezes já passaram por outros tratamentos prévios e isso nos leva a um grande crescimento profissional.
O Sr. é bem jovem. Qual é a fórmula para ter alcançado projeção rápida na sua área?
Acho que a forte formação que adquiri na graduação e residência na Unicamp me deixou bem preparado para a vida profissional. Além disso, muita dedicação e estudo. Reprodução humana é uma área que cresce rapidamente, com muitas inovações a todo momento. Então, exige que sempre estejamos atentos às novidades, pesquisas, congressos.
Em quem o Sr. se espelha como profissional da saúde?
Tive muitos professores na Unicamp em quem me espelho, tanto no ponto de vista médico como na relação médico-paciente e ética.
Caso o sr. descobrisse que a sua parceira não pode ser mãe, qual seria a primeira atitude a tomar? E se fosse ao contrário, ou seja, o Sr. descobrisse que não pode ser pai?
Se estivéssemos tentando ter filhos e esse fosse nosso projeto de vida, faria toda investigação e tratamento que fossem necessários para realizar nosso sonho, independente do problema ser de um, do outro ou dos dois.
O Sr. tem vontade de ser pai? Já pensou em uma família grande?
Tenho vontade de ser pai. Mas, no máximo, dois filhos.

Quais são os seus projetos futuros dentro da medicina?
Pretendo continuar dedicado à minha área, mantendo a medicina privada e meu trabalho na universidade (Unicamp). Esse ano, pretendemos lançar dois livros para ginecologistas: um sobre inseminação artificial e outro sobre preservação da fertilidade em pacientes com câncer. Devo começar, em breve, meu doutorado também.
Existe algum sonho que ainda pretende alcançar?
Gostaria que pesquisas que participo um dia contribuam para grandes avanços na reprodução assistida.
É muito difícil avisar uma paciente que ela jamais será mãe?
A notícia de qualquer tratamento para engravidar que não dá certo é muito difícil, pois os tratamentos, às vezes, são muito desgastantes do ponto de vista físico e emocional. Existem poucas ocasiões onde, realmente, não há possibilidade alguma de gestação. Mas, algumas vezes, isso necessita óvulo doado, banco de sêmen ou útero de substituição (barriga de aluguel), o que nem sempre é aceito pela paciente. Então, acaba sendo um fim ao sonho. Outras vezes até existem possibilidades, mas o casal já está muito desgastado de tratamentos anteriores e acaba desistindo. É muito triste quando o casal colocou muito esforço e esperança num tratamento e não tem o resultado esperado. Infelizmente, mesmo com fertilização in vitro, a chance de sucesso ainda é em torno de 50%, em geral.
Nestes casos, quais são as sugestões dadas ao casal?
Quando não há outra possibilidade, a adoção, às vezes, é a única opção e deve ser encorajada. Mas, às vezes, existem possibilidades e o casal não aceita, como utilizar óvulos doados e banco de sêmen. Tento desmistificar esses tratamentos e muitos casais que tinham muito preconceito, às vezes, acabam aceitando e realizando o sonho de serem pais.
Qual é o tratamento mais complicado e difícil na reprodução humana?
Quando o ovário já esgotou os óvulos, o que ocorre principalmente pela idade avançada da mulher, é muito difícil conseguir sucesso com óvulos próprios. Muitas vezes, mesmo estimulando os ovários, não conseguimos óvulos e quando conseguimos, às vezes os embriões são de má qualidade e as chances de sucesso pequenas. Nestes casos, óvulos doados são a solução, mas nem sempre o casal aceita essa opção. Outro caso difícil é quando se necessita útero de substituição (barriga de aluguel), pois a legislação brasileira permite que somente parentes possam "ceder" o útero e nem sempre tem alguma familiar disposta a isso e com condições de se submeter ao tratamento.
O Sr. é um médico com uma aparência impecável. Alguma paciente já deu em cima do Sr.?
Sou muito sério em meu consultório e não dou muita margem a isso e sempre temos uma enfermeira na consulta. Além disso, a maioria dos casos que atendo são casais.
O Sr. pratica esportes, cuida do corpo, é preocupado com a própria saúde?
Apesar da vida bem corrida, consigo, pelo menos, fazer academia e corrida. Tenho uma dieta saudável e procuro me cuidar.
Imaginamos que o sr. trabalha muito e sem horários ajustados. Sobra tempo para a vida pessoal, amigos, coração?
A vida da maioria dos médicos é bem corrida. No meu caso, tenho uma agenda bem cheia, mas consigo me organizar para lazer. Infelizmente, imprevistos acontecem e, às vezes, estragam planos de lazer. Mas, em geral, consigo me organizar.
O sr. é casado? Tem filhos?
Não sou casado, nem tenho filhos
Bate-volta-rapidinho!
Um sonho... desenvolver grandes projetos de pesquisa
Um defeito... muito sonhador
Uma ambição... crescer muito do ponto de vista científico
Lugar para viajar... Espanha
Uma qualidade... ser muito dedicado e muito correto
Viver é... contribuir para um mundo melhor, mas sabendo aproveitar os bons momentos da vida
Deus... quem me mantém forte
Família... alicerce de tudo
Amigos... essenciais para tornar a vida mais leve
Felicidade é ... fazer o que gosta
Rogério Leão por Rogério Leão.... trabalhador, dedicado, sonhador, bem humorado.
Confira as fotos by Ricardo Cardoso.













