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ENTREVISTA

Laércio Luiz: uma vida à arte

13 de fev. de 2015 - 22:41

Do coração pulsante de Florianópolis, capital de um estado referência quando o assunto é qualidade de vida, é que sai o entrevistado da semana da Coluna Frisson.

Culto, objetivo, sensível e consciente de seu papel, o artista plástico Laércio Luiz falou sobre sua carreira, o início de seus trabalhos, a infância regada à aproximação com o natural e as perspectivas do futuro. “A natureza é infinitamente rica de cores, nos olhamos desde que me conheço por gente, eu e ela. As flores, por exemplo, algumas possibilitam nuances incríveis, sementes e frutos também, é preciso catalogar, inventar e re-inventar uma tabela de cores extraídos da terra, de suas matas, das rochas e areias. Quando estou pintando, continuo pesquisando, as obras não ficam prontas até encontrar o tom que ela me exige. Frequentemente, isso me estimula porque não costumo desanimar facilmente, é um respeito comigo mesmo”, declarou. Confira a entrevista a seguir:

Como surgiu o interesse pelas artes plásticas?
O processo foi lento e gradual, começa nas primeiras brincadeiras de um menino em uma pequena cidade chamada São João Batista, em Santa Catarina. Um pouco mais velho, aos 11 anos, na casa de familiares em Itajaí, eu vi pela primeira vez, quadros na parede e fiquei maravilhado. Já gostava de desenhar e passei a frequentar aulas que foram muito importantes na minha formação inicial.

Rememorando a infância, como se deu os contatos iniciais com o mundo das artes?
Desde que me lembro, nítido na minha memória, me vejo brincando com a terra e fazendo desenhos no chão. Vivia manchando as minhas roupas e a dos outros. Eu ficava fascinado com os efeitos produzidos. É impressionante como a natureza dava-me os brinquedos, um galho aqui, uma folha lá, sementes de diversos tamanhos, pedras coloridas e variados formatos, uma coisa maravilhosa. E ainda dava-me o espaço para desenhar o meu imaginário. Meus familiares é que não ficavam muito contentes com as minhas primeiras iniciativas no caminho da arte.

Qual a essência do seu trabalho artístico?
De uma forma ou de outra, meus valores pessoais estão presentes nas minhas criações. Na maioria das vezes, utilizo material reciclável, pigmentos naturais, inclusive o fixador, tintas, nuances e cores extraídos da terra. Procuro formas de retribuir com arte o que a terra me oferece com muita generosidade. Não me vejo fora dela, convivo na sua atmosfera conscientemente. Diria que todos os seres humanos têm oportunidade de estabelecer esse diálogo, claro, alguns com mais sensibilidade do que outros. O que move minha necessidade de expressar é a minha urgência em elaborar algo que represente um signo dialético e cujo sentido seja estético. Algo que seja possível capturar, conter desde a minha perspectiva, esse é um instante de potência criativa. Meu labor artístico procura transformar, reinventar o que está para, e em mim, presente.

O que define uma obra de arte feita por você?
É muito difícil para um artista falar de sua própria obra. Definir a minha me faz pensar no trajeto, um longo e complexo caminho. Desde o inicio até hoje, percebo um processo de maturação, algo significativo para mim. Continuo buscando aprimorar minhas pesquisas pessoais de materiais e técnicas para melhorar o resultado de minhas intenções criativas. As minhas tentativas de aproximação com a arte resultam nessas obras, das quais gosto mais de umas do que outras. Como todo artista, tenho as minhas preferências, embora, em alguns casos, não sejam as mesmas obras que outros escolheriam. Diria que, por um lado, no conjunto, a minha obra é contemporânea, inserida no seu tempo. Por outro, em tempos de avançada tecnologia, é como uma voz ecoando sutil e determinada na valorização da sustentabilidade. Um tributo possibilitado na aproximação de que falava.

Sua fabricação da tinta utilizada é um diferencial. Como considera que isso repercuta na obra?
Trabalhar com pigmentos e materiais naturais é fácil, as crianças adoram, pessoas de todas as idades que fazem as oficinas se divertem, aprendem, é muito interessante esse re-encontro. Como artista, eu venho usando esse material de forma bastante autodidata. Considerando o

s incipientes trabalhos e pesquisas anteriores, posso dizer que não foi nada fácil. Imagine que toda novidade provoca reação imediata a favor ou contra. Levei muito tempo para conseguir chegar onde estou, e sem dúvida os materiais que sempre usei contribuem significativamente. O esgotamento dos bens naturais traz a tona o tema ambientalista e sua lamentável realidade. Muito antes disso já estava fabricando tintas naturais. Além dessa relevância, o aspecto artesanal transforma a obtenção de cores em uma alquimia, um processo mágico, por si mesmo.

De que forma considera que as artes plásticas podem repercutir no desenvolvimento cultural brasileiro?
O visual, nos dias de hoje, é um leque cada vez mais em franca expansão. Nesse contexto, as artes plásticas encontram infinitas possibilidades. A arte nos diz: mova-me. As nossas culturas assimilam todo esse movimento. Ao mesmo tempo, com muita velocidade vão surgindo novas e renovadas narrativas, uma escultura, um quadro, uma instalação, enfim, produtos culturais estão constantemente movendo-se nesse País, tanto quanto a música, o teatro, o cinema. Infelizmente, existem muitos cantos e recantos que ainda precisamos alcançar. Nesse mesmo momento, com certeza, um menino deve estar na beira de um rio brincando com argila ou barro, eu o imagino olhando as formas criadas por ele, sentindo prazer de tê-las elaborado. Quiçá o menino nem chegue a desenvolver uma trajetória artística, mas esse contato é inenarrável, apenas na arte poderíamos ousar vislumbrar o que sentimos tão vivo e presente.

Qual uma autocrítica que você faz a seu trabalho?
Acredito que ainda tenho um bom campo para que o meu trabalho atinja a contundência no alicerce que me propus. Algumas vezes preciso parar um pouco a minha tarefa artística, é quando retomo às minhas pesquisas e suas minúcias. Os processos que tenho que desenvolver me exige um debruçar bastante artesanal. Eu quero explorar melhor formas de experimentar com mais liberdade aquilo que desejo dizer.

A quê atribui o sucesso em sua carreira e os 22 prêmios conquistados?
À convicção na minha arte, à fidelidade aos meus princípios criativos e principalmente ao meu trabalho, um árduo e entusiástico trabalho.

Até que ponto o cotidiano de Florianópolis influencia em sua concepção artística?
Cada cidade tem seus encantos, Florianópolis é muito interessante, literalmente é um lugar de encontros culturais e distintos sotaques, é como se todas as melodias do nosso país e do exterior tocassem por lá. Esse fato interfere na efervescência cultural da cidade de ascendência açoriana. Uma soma cujo cotidiano faz parte de mim. Naturalmente, transpiro em minhas obras suas cores maravilhosas, utilizo suas matérias vegetais, o pó de suas rochas, inclusive parte de material retirados quando a reforma da famosa ponte fazem parte do Boitatá, uma imensa escultura que fiz em homenagem ao renomado artista catarinense Franklin Cascaes e está instalada no campus da Universidade Federal de Santa Catarina. A obra faz parte das comemorações dos 50 anos da universidade. Orgulho-me de ter tido a oportunidade de homenagear alguém a quem admiro muito.

Qual a importância das cores em seu processo criativo?
O efeito das cores é uma das minhas buscas mais apaixonantes, enquanto faço as minhas experiências ou busco matérias primas, ralo, lixo, misturo, combino, eu já tenho uma cor bem definida na minha mente. Eu trabalho nisso até conseguir o mais próximo daquilo que desejo, até que me sinta satisfeito, por isso é um processo demorado. As minhas tintas não estão à venda na prateleira, não basta abrir um potinho e pronto, algumas cores são muito difíceis de conseguir, certas nuances preciso filtrar inúmeras vezes, para outras necessito dosagens e reforços para atingir a intensidade que busco.

A ausência delas poderia prejudicar sua obra?
É possível, claro, mas é esse o desafio que enfrento, essa busca é o que me fez o artista que sou. Não se trata apenas de trazer para a tela ou a escultura o efeito visual que se deseja, mas a forma como essa conexão se estabelece é que se apresenta mais complexo, exige que se lute com a adversidade de chegar a tal resultado, enfim, a obra imaginada. A natureza é infinitamente rica de cores, nos olhamos desde que me conheço por gente, eu e ela. As flores, por exemplo, algumas possibilitam nuances incríveis, sementes e frutos também, é preciso catalogar, inventar e re-inventar uma tabela de cores extraídos da terra, de suas matas, das rochas e areias. Quando estou pintando, continuo pesquisando, as obras não ficam prontas até encontrar o tom que ela me exige. Frequentemente, isso me estimula porque não costumo desanimar facilmente, é um respeito comigo mesmo.

Como se sente sabendo que Madonna já comprou obras suas?
Quem faz arte espera a resposta do outro, seja do cidadão comum, seja de uma figura famosa. A aceitação é algo que buscamos naturalmente. É na obra que o artista se realiza. Madonna é um ícone da cultura ocidental contemporânea, imaginar que o meu trabalho foi escolhido por ela me deixa muito satisfeito, quem não estaria?

Quais as geometrias e os formatos que imprimem sua marca nas obras?
É possível que as minhas primeiras noções de espacialidade tenham sido assimiladas na infância, logicamente fui aprimorando muito mais. Basicamente, me inspiro nas ondulações dos próprios objetos com que trabalho, rochas, paisagens, cascas, folhas, formas que fartamente me oferecem seus elementos geométricos. Eu disponho de seus ângulos, curvas e retas, e conjugo outros re-encontros em meus desenhos.

Como planeja estrategicamente sua carreira?
A minha avó sempre falava: um passo de cada vez, e estava certa. Imagine alguém que trabalha muito em uma área difícil, mas que não pode desistir nunca porque acredita com convicção de que tem algo a dizer. Nesse momento, estou iniciando um novo degrau. Encontro-me felizmente bem conhecido no meu estado, já viajei o mundo, fiquei um bom tempo na Europa, assim minhas obras vão ampliando fronteiras. A convite da Galeria Roberta Britto, estou em São Paulo, então, trata-se da obra de um artista que empenhou sua vida à criação artística no universo do resgate e da preservação. O próximo passo não é estratégico, é consequência.

Como deseja que esteja sua vida profissional daqui a 10 anos?
Que pergunta interessante, eu gostaria muito que as minhas obras fossem reconhecidas pelo que a arte, em essência, representa: um veículo estético, de seu tempo, de sua cultura. Eu olharia para trás e pensaria: custou um imenso esforço, um amor autêntico, mas como valeu caminhar por essa estrada. Persistir, aprimorar, seguir em frente, sobretudo, fazendo arte.

Por fim, como quer deixar seu nome na história das artes plásticas brasileiras?
Como um ser sensível que procurou fazer de sua arte uma obra coerente com as suas convicções humanas e estéticas.

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