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ENTREVISTA

Prefeito Roberto Cláudio

A Fortaleza que está sendo construída.

19 de set. de 2014 - 07:32

Prestes a completar dois anos de mandato, o Prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, aborda como recebeu a cidade da gestão anterior, reitera o que foi prometido durante a sua campanha e o que foi efetivamente cumprido, esclarece polêmicas, faz novas promessas e estabelece prazos. Ele garante que há muito ainda a ser feito e que permanece trabalhando para melhorar a capital cearense. Além disso, comenta sobre os fatos mais recentes, encontros e desencontros da política local.

Nascido em 15 de agosto de 1975, Roberto Cláudio é graduado em Medicina pela Universidade Federal do Ceará (UFC), com mestrado e doutorado em saúde pública pela Universidade do Arizona, nos Estados Unidos. Ele já exerceu mandatos como deputado estadual e agora está em pleno exercício do seu primeiro cargo no Poder Executivo.

A entrevista exclusiva foi concedida à jornalista Patrícia Calderón. Confira todos os detalhes...  

Inicialmente, o Sr. poderia fazer um balanço do seu trabalho à frente da capital cearense?

Eu gosto de contar com exatidão o tempo porque eu quero que passe bem devagar para poder cumprir todas as promessas. Eu estou agora com um ano e oito meses de mandato. São 20 meses de mandato. Na verdade, o início é talvez a fase mais difícil do exercício do mandato. É quando você tem que organizar a casa, pagar as contas, saber  que tem de bom que foi deixado, quais os projetos em andamento, os desafios futuros, ou seja, fazer um diagnóstico da cidade.

Esse diagnóstico não foi realizado antecipadamente?

Por mais que você conheça e discuta a cidade durante a campanha, só o exercício do governo é que lhe dá a compreensão exata dos problemas, de onde estão, de quais são as verdadeiras prioridades da cidade.

E a partir dessa compreensão?

Começa outra fase desafiadora, que leve tempo. Desenvolver novos projetos, captar recursos e começar as intervenções. Eu diria que essa foi uma fase estruturante para que a gente pudesse, ao longo desse ano, estar entregando uma série de obras, além de compromissos sendo iniciados.

Alguns compromissos de campanha ganharam muito relevo, sobretudo por conta da Copa do Mundo do Brasil, sendo Fortaleza uma das cidades-sede da competição...
A gente teve que, em um ano e meio, encurtar os prazos e entregar uma série de intervenções para que o evento fosse, como foi de fato, um sucesso para a economia, a dinâmica da cidade.

Quais os primeiros desafios encarados pelo Sr. ao assumir a Prefeitura?
O primeiro foi o bilhete único, que gerou grande debate, se daria resultados efetivos. Em julho de 2013, nós implementamos o bilhete único, mantendo o preço da tarifa. E estamos com uma pauta progressiva de mudanças. O bilhete único foi entregue.

Essa ação foi o bastante para a melhoria da mobilidade urbana?
Isso não foi o bastante. Então, nós passamos a integrar ônibus e vans com o bilhete único e, agora, estamos integrando as linhas de vans e ônibus, inclusive com vans entrando nos terminais para proporcionar mais economia de dinheiro e de tempo para o usuário. E, a partir de dezembro próximo, vamos fazer toda a troca da frota, progressivamente, por veículos com ar condicionado. Com isso, nós estamos contemplando um compromisso de campanha.

A questão do ar condicionado não pode alterar o valor da passagem para cima?
Sempre há esse desafio. A gente não pode qualificar o serviço sem se preocupar se vai impactar na tarifa. O que estamos fazendo compensar isso? Já começamos a implantar as faixas exclusivas de ônibus. Para dar uma ideia de grandeza, quando eu assumi, tínhamos apenas 11 quilômetros em Fortaleza de faixas exclusivas de ônibus. Até junho do próximo ano, nós teremos mais 120 quilômetros implementados.

Qual a vantagem da faixa exclusiva?
Para o usuário, o coletivo anda mais rápido. Não para tanto, não concorre com o carro. Em algumas áreas da cidade, se ganha 40% do tempo de deslocamento. E para a economia do sistema, como o ônibus roda menos e para mais, você tem economia para esse mesmo sistema. Mas, a frota não vai ser trocada toda de uma vez. Será ao longo de seis anos. Para compensar esse custo, o bilhete único tem melhorado a performance do sistema, a integração de ônibus e vans está melhorando e as faixas serão importantes para a gente poder equilibrar a qualidade do serviço progressiva, mantendo uma tarifa que continue sendo a mais barata do Brasil.

Além da mobilidade urbana, quais outras áreas prioritárias no conjunto de propostas de governo apresentadas à população de Fortaleza?
Saúde e educação. São áreas complexas, não se muda com promessas, do dia para a noite. Tem que ser tenaz, determinado e observar investimento, obra e cobrança.

O que já foi feito nessas áreas?
Começamos pelos postos de saúde e Unidades de pronto Atendimento (Upas). Temos uma longa pauta ainda para os dois anos e quatro meses que nos restam de mandato e começamos também na área de educação a entregar creches e a construir escolas que funcionam em tempo integral.

Voltando à questão da mobilidade urbana, com a Copa, muitas obras ocorreram em Fortaleza. Mas, algumas estão inacabadas como é o caso da Raul Barbosa. O Sr. poderia comentar sobre isso?
Quando nos assumimos – até prestei contas  disso -, também assumimos um cronograma de obras que deveria ter sido iniciado a mais de dois anos, mas que só foi iniciado conosco. Então, tivemos um ano e meio para cumprir uma agenda de quase quatro anos.

O que foi feito, então?

Qual foi o pacto que fizemos com a população de Fortaleza e o Ministério das Cidades, que é o agente que financiou as obras? Vamos terminar em um ano e meio aquilo que é fundamental para o evento, no caso a Copa do Mundo. Assim, decidimos entregar a Avenida Alberto craveiro, o túnel e a requalificação da Avenida Paulino Rocha e o túnel da Avenida Santos Dumont. Tudo isso são obras que iniciamos e finalizamos em um ano e meio. As outras intervenções deixaram de ser para a Copa. São obras de mobilidade para a própria cidade e essas envolvem o túnel da Avenida Padre Antonio Tomaz sobre a Via Expressa, o túnel da Rua Alberto Sá sobre a Via expressa, o elevado da Avenida Raul Barbosa sobre a Avenida Murilo Borges e, além disso, para finalizar os financiamentos vinculados à Copa, os elevados da Dedé Brasil sobre a Germano Franck e Osório de Paiva. Todas essas intervenções nós iniciarem agora no segundo semestre de 2014. Na gestão, ainda desenvolvemos projetos executivos, garantimos os avais de financiamento para assegurar as intervenções. Além dessas obras, eu estou entregando os elevado da Santos Dumont com Antonio Sales e iniciarei até dezembro um túnel (mergulho) na Santana Jr. com Padre Antonio Tomaz, com a retirada dos semáforos em todo aquele trecho da Santana Jr.

Há mais obras a serem executadas?
Há pelo menos sete outros corredores com obras sendo iniciadas entre o segundo semestre deste ano e o primeiro semestre de 2015, a Avenida Aguanambi, do Centro até a BR 116; Avenida perimetral, a continuação da Via Expressa até o Pirambu, o binário do Conjunto Ceará ao Siqueira, Leste-Oeste, Expedicionários e Fernandes Távora, Augusto dos Anjos e José Bastos. São obras viárias, com viadutos e túneis, mais drenagem, requalificação de pavimentos, calçadas, ciclovias e todas com corredores exclusivos para ônibus para que o transporte público possa ocorrer com mais rapidez e eficiência.

É nítido que o fluxo de veículos aumentou muito de uns tempos para cá. Inclusive, há sérios problemas quando ocorrem acidentes. Como resolver  essa questão?
Nós estamos implantando a Operação Via Livre. Nesse âmbito, Fortaleza não tinha nenhum guincho de veículos, nenhuma operação para resolver colisões veiculares que acarretam  grandes inconveniências. não havia protocolo para batidas, uma operação específica para desobstruir a via. Assim, em paralelo com as obras viárias, há um conjunto de ações que nós denominamos de Programa de Ações Imediatas de Transporte e Trânsito (Pait). É um conjunto de medidas que podem melhorar e qualificar o trânsito sem necessidade de intervir com obras. A primeira é a Operação Via Livre, que está sendo iniciada pela Regional IV. Inicialmente, não será na cidade inteira porque tem que ser avaliada, o tamanho necessário, a eficiência. São 170 homens a mais na cidade - agentes operadores -, além de motocicletas, carros e até painéis de led para orientação dos motoristas. Também teremos seis guinchos pequenos e um grande, justamente para liberar rapidamente o fluxo nas vida em casos de sinistros. Começa este mês pela Regional IV e posteriormente será levada para toda a cidade.

Vamos falar um pouco de Saúde. Nós recebemos muitas denuncias de pessoas que precisam do serviço de saúde e a falta de medicamentos básicos é terrível na capital. O que o Sr. tem a dizer sobre isso?
A saúde é o mais grave e o mais sério desafio que nós temos em Fortaleza. E olha que são muitos. Mas, o grande problema da cidade é a saúde. E isso não acontece por acaso.  Isso é fruto do acúmulo de desabastecimento, carência de profissionais, precariedade da infraestrutura, falta de prioridade á saúde. Isso é um desafio grandioso que não vai ser resolvido por mágica ou pelo caminho demagógico. Tem que ser trabalho, cobrança, investimento todo dia o dia inteiro e priorizar efetivamente a área.

O que há disponível hoje em termos de saúde para a população?

A rede é complexa. Vai desde a atenção primária até o mais complexo hospital terciário, que é o IJF. Hoje, temos 10 hospitais, 92 postos e muita precariedade acumulada. Qual foi a nossa decisão? Nos dois primeiros anos da gestão, a prioridade foi colocar para funcionar o essencial na cidade, que é a atenção primária, o posto de saúde. Com postos e Upas funcionando bem,  gente consegue resolver aproximadamente 80% de todos os problemas da saúde. o resto fica sendo tratamentos especiais, que os hospitais dão conta de resolver. O que já fizemos até então? Dos 92 postos de saúde, 75 foram reformados ou adaptados, com colocação de ar condicionado, informatização, com consulta marcada, funcionamento 12 horas corridas, das 7 às 19 horas. Havia problema de falta de escala de médicos, não havia atendimento. Agora, as farmácias estão abastecidas e laboratórios funcionando. Mas, ainda há 17 unidades que não foram reformadas. Ainda há problemas. O abastecimento de medicamentos  básicos, por exemplo, depende do distribuidor. Mas, nós aumentamos em três vezes e meia o atendimento nos postos de saúde.

E os postos ainda não contemplados?

As unidades estão sendo reformado e estamos construindo 22 novos postos, o que elevará o número de unidades para 114 até o meio do próximo ano e entregaremos mais três Upas (Vila velha, Bom Jardim e Rodolfo Teófilo). O problema de abastecimento sempre vai existir, mas estamos focados em minimizar o problema, inclusive fazendo a entrega do medicamento que faltava, assim que chegar no posto, na casa do paciente.

O Sr. é da base governista. Como ficará a parceria entre Prefeitura e Estado no caso de vitória de um candidato de oposição?

Tudo o que a cidade precisou e eu demandei ao governador Cid, foi atendido. Até um pouco mais. O governo foi cooperativo. O lençol é curto e sem apoio e parcerias fica muito difícil governar. Por isso é que eu torço para termos um governador parceiro, aliado, que possa continuar com esse mesmo apoio, mesma parceria que a Prefeitura tem recebido.

Ainda sobre eleições, fale um pouco sobre o rompimento com o PMDB e como está a relação com o seu vice?
 
Nós não rompemos com o PMDB. Foi o PMDB que se afastou do nosso projeto de compensar as desigualdades históricas, que tem sido vitorioso, com inúmeros avanços, como o maior conjunto de investimentos da história da saúde pública no Ceará, melhorias na educação e na economia... Há um legado a se defender e a se mostrar... Mas, o PMDB resolveu se alinhar com forças mais conservadoras e a postulação ao governo do Estado é legítima...

E a sua relação do Sr. com o senador Eunício Oliveira e com o vice-prefeito Gaudêncio?

A política acirra ânimos, mas as relações sociais, pessoais devem ser preservadas. Contudo, não podemos abrir mão de manifestar as opiniões, de dizer o que pensa com clareza para a população saber de que lado você está. É obrigação do político se posicionar. Eu continuo do lado em que sempre estive, do lado do projeto do governador Cid. Por outro lado, sempre tive uma relação muito cordial com o Gaudêncio. Creio que ele entende a minha posição e eu entendo a dele. Democracia é isso e eu estou convicto de que o nosso lado é o que melhor representa o sentimento do cearense, o desejo de avanço em todos os indicadores.

O escândalo dos banheiros quando o candidato era secretário das Cidades pode vir à tona, pode afetar a candidatura de Camilo Santana?

É preciso ter clareza. Esse caso aconteceu antes de o Camilo ser secretário e foi ele que solicitou a investigação de todos os fatos. Mas, o mais importante é que nenhum outro candidato do governo do estado tem a juventude, a energia, a experiência administrativa. Posso dizer também que ele é o mais decente, o que tem as melhores parcerias e propostas que mais de identificam com o pensamento do povo cearense.

Mas, a corrida está acirrada...

Em duas semanas, o Camilo cresceu 20% na preferência do eleitorado, que através da propaganda ficou conhecendo sãs propostas. Então, ainda tem tempo para a virada. Mas, com humildade e muito trabalho e o apoio da militância para apresentar o nosso candidato.

Vamos para o âmbito nacional. O boom Marina Silva? Como o Sr. avalia?

Está ainda todo mundo contaminado pelas emoções da perda do candidato Eduardo campos, a troca repentina de candidatos e a Marina foi a terceira força na última eleição. Tudo isso acabou dando o fermento inicial à candidatura da Marina, alimentada pelos setores mais conservadores. A presidente Dilma manteve a sua posição.  O que mudou no cenário foi a candidatura do Aécio que ficou fraca. Mas, vai chegar a hora das contradições. Há uma certa dose de oportunismo no discurso da Marina até então. É preciso que as pessoas tenham clareza sobre quais as posições verdadeiras dela a respeito dos temas que são centrais ao Brasil.

Mas, é claro que aqui no Ceará, Prefeitura e Governo se aliam ao PT...

Nos cremos que o ciclo do presidente Lula e depois da presidenta Dilma foram transformadores para o Brasil e profundamente modificadores da realidade do Nordeste. Nunca a região teve tantos investimentos sociais e de infraestrutura, em especial no Ceará, como Metrô, siderúrgica e outros... Por esse conjunto de fatores, nós, com convicção, apoiamos e pedimos apoio à reeleição da presidenta Dilma.

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