Nágela Pinheiro e a inspiradora história do Grupo Vale da Saudade

Nossa entrevistada da semana, a empresária Nágela Pinheiro, está à frente do Grupo Vale da Saudade, com empresas funerárias e cemitérios em Fortaleza e em mais outras cidades do Nordeste, como Recife, Salvador, João Pessoa e Campina Grande. Além disso, em 2017, tornaram-se o primeiro cemitério do Brasil a ter certificação ISO 9001. Mas o começo não foi fácil e a sua história é uma verdadeira lição de vida.

Em um bate-papo com o Frisson News, a empresária conta um pouco como tudo aconteceu e o segredo do seu sucesso. "Desde criança aprendi que se desejamos algo, somos a única pessoa responsável por conquistar isso. A vida nunca foi fácil, e nada nunca veio de graça. Eu sou muito grata por tudo isso, porque essas experiências me tornaram o que sou hoje, não somente como empresária, mas principalmente como pessoa. Uma coisa que sempre acreditei é que qual seja a situação faça seu melhor, quando fazemos nosso melhor conseguimos desenvolver capacidades e habilidades que nem sabíamos que tínhamos", falou Nágela.

Atualmente, você e seu marido são caps de um grupo funerário com filiais no Nordeste. Mas o começo não foi fácil. Como era a vida de vocês antes de construírem a primeira empresa? 

Bem, eu e meu marido nos conhecemos na adolescência e nos casamos aos 16 anos de idade, jovens demais. Sem ter terminado os estudos e sem profissão, iniciamos nossa jornada juntos, mas com muita coragem de fazer dar certo. Eu estudava e trabalhava vendendo produtos da Natura, Avon e Tupperware; meu esposo sempre foi um bom vendedor e também trabalhava com vendas. Depois de dois anos dessa forma, sem perspectiva de melhoria de vida, ele conseguiu um trabalho na cidade de São Paulo e foi para lá sozinho. Dois meses depois ele já havia se organizado o suficiente para que eu pudesse ir com o nosso filho de 2 anos de idade. Eu, que nunca tinha morado em uma cidade tão grande e desafiadora como São Paulo, fui sem pensar muito, mas com a fé de que tudo daria certo. Chegando lá, consegui um emprego em uma lanchonete. Depois observei que a três quarteirões da minha casa tinha um posto de gasolina, e todos os dias, ao ir para o trabalho, eu pensava em como seria bom trabalhar ali. Como era próximo à minha casa, eu teria mais tempo com o meu pequeno filho. Passei os próximos três meses passando em frente ao posto quase todos os dias e pedindo uma oportunidade de trabalho ao proprietário. Até que um belo dia ele disse: “Está bem, você tem uma vaga como frentista”. Passei quatro meses nessa função, fazia questão de aprender e fazer os mesmos serviços que os homens frentistas. Não queria ser diferente pelo fato de ser mulher. Ao contrário, pelo fato de ser mulher consegui organizar muitas coisas que antes eram ignoradas. Me tornei uma pessoa de confiança do proprietário, pois sempre procurava dar o meu melhor. Aprendi a gerenciar, organizar, vender e atender. Quando a loja de conveniência ficou pronta, o posto foi automatizado e meu chefe me deu a responsabilidade de aprender e controlar todo sistema. Me esforcei ao máximo para aprender, saia mais tarde que todos os outros e logo eu estava gerenciando tudo. Trabalhei lá por quase 4 anos. Nesse tempo, engravidei da minha segunda e terceira filha também, e como seria difícil trabalhar e ao mesmo tempo cuidar de três filhos, decidimos voltar para o Ceará. Em 1997, começamos nossa empreitada rumo à nossa terrinha: vendemos tudo, juntamos o dinheiro que tínhamos e voltamos. Com o dinheiro que juntamos e a ajuda de meu sogro compramos uma casinha simples em um bairro suburbano de Fortaleza. Reiniciamos assim nossa vida. Voltei a trabalhar em posto de gasolina, fui professora, e então me formei em pedagogia. Entre muitas coisas que fizemos para sobreviver foi fazer salgados para vender na praia, colocamos uma locadora de vídeo, e uma banca de pastel.

E de onde surgiu a ideia de investir no ramo funerário? 

Em 2002, meu esposo foi trabalhar no ramo funerário. Esforçado e dedicado como ele é, aprendeu rapidamente tudo sobre o ramo, e após cerca de quase dois anos trabalhando na área, ele chegou em casa em um belo dia e disse: “Amor, vamos criar uma empresa funerária”! “Como assim”? – perguntei –, “O que ganhamos mal dá para nos sustentar”! “Vamos vender nossa casa e morar na funerária” – ele me respondeu. Por mais incrível que pareça, aquilo não me soou totalmente loucura. Somos pessoas religiosas, então eu disse que deveríamos orar sobre o assunto. Acho que eu nunca tinha orado tão fervorosamente até aquela noite. Nessa mesma noite, sonhei com uma canção da igreja, cujo refrão diz: “Sossegai, sossegai”! - No sentido geral de que tudo ficaria bem! No dia seguinte falei para ao meu marido que sim, que poderíamos vender a casa e iniciar a funerária.

No início, vocês não tinham capital para investir, ou seja, começaram do zero. Conta como começou a Vale daSaudade.

Alugamos a antiga casa dos meus pais, onde antes eles tiveram pequenos comércios. A funerária funcionava na frente da casa e nos fundos era a nossa residência. Lembro-me que a sala da minha casa era o depósito de urnas. Meu marido, que sempre foi um ótimo vendedor, sabia que o sucesso do negócio estaria em captar o maior número de clientes. Então, a primeira ação foi contratar e treinar bons vendedores. Como nosso capital era bem reduzido, era composto da venda da casa e sabíamos que tínhamos capital de giro de 6 meses, precisávamos gerar receita rápido. Contratamos vendedores de porta a porta - o famoso “P a P”. Nós mesmos estruturamos uma estratégia de vendas e marketing, com um diferencial no plano: um serviço de carona para os clientes até hospitais e clínicas. Isso foi ótimo para as vendas. Assim, em 2004 iniciamos as atividades da funerária. No início, meu marido era o gerente comercial, o motorista fúnebre e o motorista do carro carona. Eu era a secretária, a faxineira, a atendente e a responsável pelo setor administrativo financeiro. Foram muitas, muitas noites sem dormir!

E nos momentos de dificuldade, em que se apoiavam para seguir em frente?

Desde criança aprendi que se desejamos algo, somos a única pessoa responsável por conquistar isso. A vida nunca foi fácil, e nada nunca veio de graça. Eu sou muito grata por tudo isso, porque essas experiências me tornaram o que sou hoje, não somente como empresária, mas principalmente como pessoa. Uma coisa que sempre acreditei é que qual seja a situação faça seu melhor, quando fazemos nosso melhor conseguimos desenvolver capacidades e habilidades que nem sabíamos que tínhamos. Ver o lado negativo, ou ficar reclamando não irá resolver nada. Procure oportunidades até onde não parece ter, que logo uma porta se abre, uma solução aparece. O empreendedorismo é isso, conseguir ver portas se abrindo e acreditar que você é capaz de aproveitar esses momentos. A resiliência sempre esteve presente em nossa trajetória, passamos por muitos momentos que tivemos que nos reinventar e nos moldar as circunstâncias até que pudéssemos melhorar e ou solucionar crises.

Com muito trabalho e fé vocês fizeram a Vale da Saudade virar um grupo de sucesso. Mas como surgiu a oportunidade de construir um cemitério?

Quatro anos depois da funerária estar indo muito bem, começamos a observar a necessidade do mercado em ter um cemitério particular que fosse acessível a famílias mais carentes. Os cemitérios públicos em todo o Brasil prestam um serviço precário e desrespeitoso às famílias enlutadas. Vimos durante esse tempo muito descaso em um momento de muita dor para as famílias que atendíamos. Em rodas de conversas com outros empresários do setor conseguimos montar um grupo de investidores, e assim iniciamos o projeto do primeiro cemitério particular com preços acessíveis a qualquer família de classe C e D do Nordeste. Foram dois anos nos órgãos competentes, e quase três para iniciar a operar. Foram muitos “nãos” e muitos – “Você está louco, um cemitério para classe C e D ?” Ou pessoas dizendo “desiste disso você não tem expertise nem capital para construir um cemitério particular.” Mas com os investidores e com nossa capacidade resiliente, fomos em frente com o projeto com uma estratégia de vendas que visava a prevenção para uma despedida digna e conseguimos superar as expectativas de vendas logo no primeiro mês. Em agosto de 2008, o cemitério foi inaugurado para sepultamentos e, em 2013, conseguimos entregar o complexo de velórios moderno aos clientes.

E a expansão para outros estados do Nordeste seguiu o mesmo modelo?

Percebemos que o modelo poderia ser implementado em outros estados do Nordeste. Em agosto de 2013, iniciamos o Grupo Vale da Saudade em Recife, em 2015, em Salvador, em 2017, em João Pessoa e, em 2019, Campina Grande, na Paraíba. Em busca de ser um diferencial em qualidade na prestação de serviços, em 2017, nos tornamos o primeiro cemitério do Brasil a ter certificação ISO 9001. Com muito aprendizado, conseguimos montar um modelo de gestão eficiente e inovador. Tivemos que buscar capacitação para tal responsabilidade. O mundo empresarial está em constante mudança e precisamos ter consciência desse fato

Qual a importância de Deus em sua vida?

Deus é o centro da minha missão, propósito e valores. Procuro sempre conversar com Ele sobre tudo em minha vida. Estudo sobre Ele e procuro por Ele em todas as coisas, pessoas, natureza e situações do dia a dia. Sabe aquela pergunta interna ? — O que Deus faria se estivesse nesta situação ? Ele é meu criador, meu pai, meu guia. Por ser filha Dele e sua criação, acredito que tenho potencial para ser como Ele é, porém, não nesta vida, mas em um outro estágio pós morte.

Como tem sido sua rotina na quarentena?

Estou sempre atenta ao que ocorre no mundo em geral. Assim que percebi que a quarentena chegaria em nossa cidade, procurei imediatamente traçar um plano envolvendo o Home office para minha equipe. Tinha consciência que algumas áreas da empresa seriam afetadas seriamente. Colocamos os planos em prática em 3 dias e quando foi decretado o lockdown já estávamos preparados. Ao longo destes 4 meses fomos adaptando a operação da empresa à situação da época. Aprendemos muito, mantivemos a visão no futuro por que sabemos que essa situação gerou e ainda gerará muitas mudanças no comportamento do consumidor e na forma que ele vê o consumo. No aspecto pessoal, também foi um grande aprendizado. Aprendi que podemos ser produtivos mesmo em situações adversas. Que o trabalho em sistema de home office é possível sim, para alguns setores, tornando até bem mais produtivo, porém a sociabilização no ambiente de trabalho se faz necessária. Somos seres sociáveis e não devemos ignorar isso. E que é na crise que você avança como ser humano.

De que forma avalia a maneira como o Brasil enfrenta a pandemia?

Achei prudente algumas medidas, como o lookdown, por exemplo. Mas não concordo com a forma como foram geridas essas medidas. Manifestou-se claramente a falta de uma estratégia conjunta entre o governo federal e os governadores dos Estados, e essa falta de alinhamento culminou em mais danos. Algo que me deixou frustada foi a forma como muito dinheiro foi liberado pelo governo federal e como ele foi desviado. Respiradores super faturados, hospitais de campanhas que não foram sequer utilizados. Já pensou se tivessem investido esse dinheiro de hospitais de campanha nas próprias Upas espalhadas pelo estado? - Eu indago sempre. Com relação aos empresários e profissionais liberais faltou por parte do governo ouvir essas categorias para entender suas dificuldades e de que forma poderia diminuir este impacto. Crises mostram o melhor e o pior dos seres humanos. Infelizmente ficamos assistindo muito o egoísmo, a falta de comunicação assertiva, a corrupção e falta de preparo daqueles que representam nossos direitos como cidadãos.

Como sua empresa lidou com a pandemia?

Assim que percebi que a quarentena chegaria em nossa cidade, já procurei traçar um plano envolvendo o Home office para nossa equipe. Tinha consciência que algumas áreas da empresa seriam seriamente afetadas, logo então, nos preparamos para as dificuldades que poderiam existir com o caixa, colocamos o plano em prática em 3 dias e ao ser decretado o loockdown estávamos preparados. Passamos a acompanhar quase que, diariamente, os indicadores e ver de que forma poderíamos contribuir socialmente com o momento e como iríamos amparar e trabalhar o emocional dos nossos colaboradores. Estratégias, portanto, foram tomadas, trabalhamos arduamente, mas estamos bem.

De que maneira avalia as críticas internacionais recebidas pelo nosso País diante da pandemia?

O que eu acho é que para cada país existe a forma de como foi tratada as estatísticas e as medidas sociais e econômicas. Todos foram pegos meio que de surpresa por um inimigo desconhecido. Para guerreá-lo precisávamos contar com a ajuda de todos, o que infelizmente, não aconteceu no Brasil. Nosso País se viu dividido em um momento de crise grave e nesses momentos a maior arma deveria ter sido a união e a estratégia, conforme ressaltei anteriormente. Uma vez definida esta estratégia, todos deveríamos falar a mesma língua e agir em conjunto, o que notoriamente não aconteceu. Eu acredito que o Brasil poderia sair-se melhor da COVID-19, mas o egoísmo dos nossos governantes, a corrupção e a falta de estrutura na área da saúde contribuíram para o resultado final. Para mim é difícil imaginar como uma pessoa pode procurar tirar vantagens em momentos como esses, mas infelizmente foi o que mais aconteceu no Brasil. E falando das críticas ao nosso país, quero ressaltar que todos erraram em um determinado momento, por exemplo, as medidas adotadas na Holanda talvez não surtissem o mesmo resultado para o Brasil, um país muito grande, com clima e situação social diferente dos demais. Outra coisa, foi a forma como feita a coleta das estatísticas que variou em cada país, também. Então, eu diria que todos erramos e que precisamos olhar para tudo isso com a seguinte pergunta : - O que aprendemos com esta crise ?

Qual a principal lição que a pandemia nos deixará após chegar ao fim da quarentena?

Que como população global estamos todos ligados. Somos nações distintas em culturas, governos, climas e línguas - mas somos uma cadeia - tudo que fizermos, afetará outros seres humanos. Que deveríamos pensar mais sobre isso e mudar a formas como percebemos uns aos outros.

De que forma cuida do corpo e da mente?

Me preocupo muito com isso. Tenho consciência que como empresária, em meio às muitas responsabilidades que tenho, preciso cuidar de mim e entender minhas emoções. Faço exercício físico de 4 a 5 vezez por semana. Procuro sempre fazer e aprender algo novo. Leio; Faço terapia; Escrevo minhas ideias, sentimentos e vivências. Isso me ajuda a processar o que aconteceu no dia e como me senti. Tenho um sistema de organização que me permite não fazer do meu cérebro uma lista de atividades.

Quais os principais desejos para o futuro pessoal e profissional?

Para meu futuro pessoal espero ser uma pessoa melhor, pode parecer clichê, mas ser uma melhor versão de mim mesma. Em todos as áreas da minha vida. Profissionalmente desejo preparar nossas empresas para uma sucessão. Me dedicar mais ao trabalho e esperar que o que faço possa ajudar e incentivar pessoas que estão em busca de seus próprios sonhos ou até mesmo ajudá-las a identificar quais são eles e como materializá-los. Fomento essa ideia em minhas redes sociais e por onde vou busco sempre incentivar a necessidade das pessoas olharem para dentro de si e encontrarem seus porquês, quem são elas e o que podem se tornar.

O que dizer àqueles que buscam empreender e não sabem por onde começar ?

Comece onde está, fazendo com responsabilidade e esforço o que faz hoje, plante as sementes e tenha coragem e compromisso para colher os frutos, que certamente virão. Aceite a responsabilidade que virá junto com o sucesso, afinal o sucesso é procurar cuidar bem todos os dias daquilo que conquistou. Sucesso é não desistir todos os dias.

*Fotos: Lino Vieira

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