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PADRE AIRTON

Uma questão ética

17 de jul. de 2020 - 17:30
Uma questão ética
Foto: Divulgação

Embora as situações sejam diferentes, há algo que nas pessoas vem a se repetir. É comum ouvir alguém, de freqüente, dar-se às voltas com conteúdos que retornam. São coisas que, constantemente, insistem em vir, e, em razão delas, vê-se pensando-se se deve-se ir por aqui ou por ali. Há coisas que chegam de repente, fazendo acreditar, a quem as sente ou pressente, que a elas é preciso prestar atenção urgentemente. São coisas que teimam em ir e vir e, mesmo com o passar dos anos, apesar das alegrias ou mesmo desenganos, insistem em emergir. Que coisas são essas, com as quais, de vez em quando, eu me dou de cara? Coisas que, para mim, são tão caras, que surgem, novamente, sem que eu entenda a que vieram ou a que se devem? O que é isso que de vez em quando retorna? O que é isso que me cobra e que, mesmo quando não quero, faz-me ir por aqui ou por ali? Que coisa é essa que, por vezes, está em minha vontade e, outras vezes, causa-me contrariedade?

Que coisa é essa que, há anos a fio, eu procuro ou mesmo me procura? Que coisa é essa que eu seduzo ou que me seduz, que guarda semelhança tanto com a treva quanto com a luz? Que coisa é essa que retorna, como quem cobra, cuja presença eu não posso negar? Que coisa é essa que eu trago em mim, que me faz ser assim, que me faz ser senhor das situações ou me faz ser despossuído de mim? Que coisa é essa? De onde vem? Como surgiu? Por onde começou? Que pode me causar alegria dentro da dor ou que, a não tomar cuidado, pode me causar grande dissabor? Que coisa é essa que eu sinto em mim? Que coisa é essa que, junto de mim, está; com a qual eu tenho, constantemente, que lidar; cuja presença me evoca outras presenças, com as quais eu não estava nem preparado a conviver, a trabalhar? Que coisa é essa que está em mim ou perto de mim e, mesmo parecendo não estar, me controla? Que me diz para ficar ou me manda embora? Que coisa é essa que eu trago em mim? E em que pode isso me modificar? Em que isso pode se modificar? Em que, uma saída, para tais coisas, eu posso encontrar? E, a persistir da forma como estou, aonde isso vai me levar? E eu pergunto: terá que ser assim? Será bom para mim ou é ruim? Será que o ruim tem que ser fatal?

Que coisa eu sinto emergir, que, por vezes, faz-me sonhar e, outras vezes, sorrir até chorar e que me diz: por aí tu deves caminhar, por aí não podes ir. Eu preciso estar atento para certos sinais, para não ser por eles surpreendido. Eu preciso não negar a evidência dos fatos, nem fazer do óbvio, desmentido. Eu preciso admitir para poder isso trabalhar, para poder com isso lidar, sem o que, como poderei sobre isso me pronunciar e uma solução para isso encontrar? Em síntese, o que é isso que retorna? O que é isso que me cobra? Que me faz mudo ou loquaz? Que me deixa inquieto ou que me deixa em paz? O que é isso que eu trago em mim? De onde vem? Para onde vai? Quer me falar de quê? Possui qual para quê? O que é isso que eu preciso ver? O que é isso que, aqui, agora, eu não pude enxergar e, se enxerguei, quis negar; olhei, mas disse que não vi? O que é isso? Para que isso que está em mim?

Todavia, passando por mim e se direcionando a outros, há algo que se baliza por um sentindo que se manifesta numa ética. Esta será da Alteridade ou da Totalidade. Descontextualizado é que não sou. Ser etéreo, excludente da realidade, ninguém é e vive. Por isso, cabe, neste livro, acerca das relações intersubjetivas, em situações as mais diferenciadas, via tratar. Isso passa desde o que se sente, a como se dão as demandas; desde o que se vê, ao que se nega; desde ao que se controla, ao que se libera; desde o que se inclui, ao que se escamoteia. Assim, um sentido há de pervardir uma modalidade de ser e de viver, mormente as que se dão balizadas por uma ética que há de ser, dentre outras, a mais pertinente em respeito e riqueza da diferença, sem o (ab)uso de posições.

Padre Airton Freire

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