Siga-nos:
ENTREVISTA

Roberta Britto: uma vida à arte

16 de mai. de 2014 - 07:33

Com uma respeitável galeria de arte que leva seu nome em São Paulo, Roberta Britto é uma das expoentes defensoras da arte em suas infinitas formas, incluindo a acessibilidade da área a todos. Na entrevista da semana da Coluna Frisson, ela falou da carreira, dos negócios e de sua trajetória ao lado do irmão, Romero. Confira a seguir:

Impossível falar com você sem remeter seu nome ao de seu irmão. O que sente ao ver o nome de Romero Britto se destacar cada vez mais pelo mundo?
Primeiro, um prazer. Isso faz parte, afinal eu sou sua irmã, e incentivadora. Mesmo sendo mais nova, também estive ao lado dele ativamente participando em vários projetos e, como trabalho com arte, é impossível não associar o meu nome ao seu, principalmente ele sendo um artista e eu, uma galerista, curadora e incentivadora das artes plásticas. Sinto um grande orgulho do meu irmão Romero. Ele é merecedor por todas as conquistas, pois vem trabalhando com afinco durante anos e anos.

Como é a presença da arte, em suas mais variadas formas, na sua vida?
Eu adoro arte, vivo e respiro arte, também gosto de esporte, música, fiz ginástica olímpica por anos. Eu sempre convivi com arte, meu irmão Antonio (irmão mais velho) escrevia músicas. Quando jovem, meu irmão Clinio cantava, vivia com amigos batendo e tocando dentro de casa. Romero pinta desde criança. E minha mãe sempre pintou e criou algo com as mãos. Acho que muito vem dela. Ela vivia fazendo bordados, crochês, costura, rendas, tecelagens, pinturas. Arte, à sua maneira, claro, algo pequeno que virava algo diferente, grande e bonito. Então, eu vivi esse mundo, com música, pintura, esporte. Inclusive, quando era criança, queria ser cantora. Eu tenho grande admiração por quem sabe tocar instrumentos, pegar um pincel, caneta, lápis e consegue criar algo novo e diferente.

De que maneira você influencia artisticamente seu irmão no lado profissional?
Eu sou uma grande inspiração para o meu irmão, pois criou varias versões de minha imagem, a BETA, como carinhosamente ele me chama, devem ser meus olhos azuis (risos). Ele começou a desenhar muito cedo e eu o apoiei e incentivei desde o começo, ajudando no que dependesse de mim, do meu trabalho, da minha inteligência e da minha companhia. Eu sempre estive ao lado do meu irmão, somos muito amigos e companheiros. Agora mais distante, pois estou em São Paulo e ele em Miami, nos falamos com frequência, trocamos email todos os dias. Na parte profissional, eu acredito que foram muitas as vezes que fiz bate e volta até um país estrangeiro para entregar um trabalho ou para participar de uma reunião de negócios, de projetos ou de exposições referente às obras de Romero, foi assim até a minha vinda ao Brasil, retorno inesperado depois de 20 anos fora. Eu vim para a realização de um de seus sonhos, dar continuidade na representação do artista meu irmão. Viajei muito com o meu irmão, participando de vários eventos, convites de todos os tipos, como de organizações de caridade ou exposições e mostras de arte. Passei anos administrando a galeria de Miami. Em 2005, por estar viajando constantemente, deixei o meu cargo e passei a fazer projetos, organizando exposições em vários países da Europa. No Brasil, venho administrando a galeria de São Paulo desde 2008.

E a galeria que leva seu nome, o que influenciou na criação?
Esta galeria foi uma criação do Romero para trazer sua arte ao Brasil e tinha o mesmo nome que a de Miami, Britto Central. Em 2008, com o meu retorno ao Brasil, houve algumas mudanças e direcionei o meu trabalho também com outros artistas. Roberta Britto Galeria de Arte é um espaço que está voltado para as artes, porém não apenas para um artista. A galeria representa Romero Britto e outros artistas renomados nacionais e internacionais, mas, principalmente, a galeria dá suporte a novos artistas emergentes que tem talento, porém não tem nome, ou seja, o reconhecimento que merecem.

Como se deu essa estreita relação pessoal com o mundo artístico?
Olha, em Miami, o Romero sempre abriu espaço na sua galeria para mostrar o trabalho de um artista amigo. No Brasil, implantei essa mesma visão, a ideia de mostrar outros talentos foi aumentando e muitos são os artistas amigos, que precisam de uma oportunidade. Então, ela foi indo, crescendo e crescendo. Aí, me deparei com várias obras lindas que se mostravam apenas por 10 dias, depois partiam, foi então que resolvi fazer um trabalho permanente com os artistas e é isso que venho fazendo.

De que forma você é uma “consumidora” de arte?
Eu sou uma pessoa bem diferente de muitas, pois gosto de diversas coisas que os outros jogariam fora, madeira velha, máquinas velhas, tenho um ferro do tempo de minha bisa, uma balança antiga e uma máquina de escrever que é uma coisa linda. A arte está em tudo que vejo, tenho obras de vários artistas, umas porque comprei durante anos, outras porque fui presenteada, tem as que gosto mais e as que gosto menos, mas as respiro todas. Algumas ficam na minha casa em São Paulo, outras estão em Miami, e tenho várias na minha casa de campo. Todos os artistas têm um espaço na minha vida.

Como lida com as críticas embasadas feitas ao seu irmão pelo excessivo uso de cores fortes no trabalho dele?
Aprendi que as criticas devem sempre ser bem-vindas, pois, se você é criticado, isso pode significar algo de bom. Romero fez o que muitos artistas adorariam poder fazer, ele faz o que muitos galeristas adorariam fazer, aí as pessoas pequenas e invejosas o criticam. Romero é um artista, um empresário, e um precursor implantando a ideia de que a arte é para todos, é igual a uma Coca-Cola, o refrigerante que o rico saboreia é a mesma que o pobre também toma. As imagens cujas formas coloridas se cruzam misturando contrastes, assim é o trabalho do meu irmão, visualmente gráfico, o seu estilo é alegre, vibrante. Com essas características, a sua obra alcançou muito sucesso; a crítica faz o seu papel, embora em alguns momentos falte uma leitura mais atualizada, inclusive no papel da arte no contexto cultural contemporâneo, no sentido de que não valida uma importante perspectiva, o momento histórico em que um determinado estilo acontece. Será que para entender o espaço da arte transversal ao universo da publicidade necessariamente só fica a sua mera comercialização? Que diálogo é esse? É possível que a descaracterize como arte? Aceito a tese desde que tenhamos um conceito definitivo para ela, a mais suprema de nossas habilidades. O Romero é um artista, a forma como a sua obra chega ao público não pode relacionar-se ao conceito sobre sua arte. Um país pobre e desigual como o nosso também é um gigante de esperançosa exuberância, nele as cores fortes e luminosas nos incentivam e encorajam. Se Picasso se inspirou nas antigas máscaras africanas em seu cubismo, nesse alcance o estilo Pop Art do Romero não merece ser interpretado sem considerar que a sua obra pode ser o resultado de uma experiência que foi sendo construída em sua consciência histórica. A obra precisa ser localizada em certo espaço e num determinado tempo, ser vista como uma produção capaz de expressar o vivenciado ou criado a partir daquilo com que se identifica. Eu me pergunto: como traduzir isso em arte em uma época em que o tempo está cada vez mais curto e a sociedade elevadamente consumista? Acontece que estamos diante de mundo globalizado e ao mesmo tempo reagimos intensificando nossos hábitos, nossas tradições, nossas culturas, quiçá como resistência à homogeneização acelerada. Considerando aspectos como esse, talvez possamos dar conta de uma avaliação mais acertada e justa de sua obra. Eu acho que a arte pode, sim, ligar diversos aspectos de cultura em suas relações de significado. Já passou o momento de revisar alguns conceitos porque estamos correndo o risco de ficar alhures do objeto analisado. Acredito que o pensamento crítico que não se insere no tempo histórico daquilo a que se refere não afeta em nada porque, na verdade, não aponta para os novos significados da obra. Um dos eventos da globalização é a reprodução dos entre-lugares, os interstícios onde se produzem inúmeros cruzamentos de pessoas e suas culturas, a época em que a descentralização é generalizada. Vivemos neste presente, no cotidiano, não é por acaso que a obra de Romero esteja em inúmeros aeroportos do mundo. Que transite pelos quatro cantos da terra, acessível e muito prestigiado pelos famosos. Acontece que, no universo globalizado, as distintas dimensões humanas se conjugam e se transformam, só o tempo e com lentes apropriadas as opiniões convergirão a favor ou contra, no momento parece que existe uma tendência em criticar sem sair do lugar, enquanto seu trabalho circula de varias formas deixando-se apreciar nas mais distintas plataformas e canais. A arte não pode ficar encastelada no museu ou em uma exposição frequentada apenas pela nata. Desde o muralismo mexicano, há uma intenção de popularizar a arte, a socialização do gosto estético é um direito de todos. Como em outros aspectos da vida, a arte é inerente à condição humana. Ainda estamos distantes dessa realidade, porém o trabalho de um artista como o Romero está ao alcance de muitos que a valorizam,

Como define a importância da arte na consolidação do desenvolvimento social brasileiro?
O Brasil tem que fazer um grande investimento no mundo das artes, ele tem que chamar às pessoas para entrarem em um museu e não ficarem achacados e com medo, entre e saia tranquilo, olhe, aprecie, se imagine com algo belo perto de você, mesmo que não tenha dinheiro para comprar. Os galeristas deveriam abrir mais suas portas para mostras de algo belo e inovador, muitas são as pessoas que não entram em uma galeria por medo até de serem maltratados por não comprar, apenas olhar, apreciar já é suficiente. Vender é fácil, todavia vender arte é uma tarefa muito mais complicada, envolve uma boa dose de sensibilidade e um imenso senso prático. Aqueles que se dedicam a isso sabem bem o que significa abordar o tema. A arte em essência é um produto que inclui diversos valores, é um leque entre o valor estético e o pecuniário. Como somar essas particularidades? Geralmente essa questão está representada no final da linha, no valor de mercado. Muito se critica a comercialização da arte, enquanto nós continuamos na constante tendência à elitização desse tipo de produto. De fato, as obras precisam ser acessíveis a todos, colocar-se no meio das pessoas é uma disponibilidade que não significa necessariamente uma pulverização do produto. Popularizar o acesso a um objeto que continua sendo uma obra. A Coca-Cola não deixou de ter o sabor de sempre, apenas foi sendo cada vez mais consumida por pessoas de todas as classes. Em tempo, o refrigerante não é uma obra, usei somente como exemplo de produto. Quando um artista faz um trabalho bom, alcança reconhecimento e chega ao mercado, a valorização de seu trabalho não deveria fixar-se nas elevadas somas que poucos conseguem pagar, mas na sua capacidade de chegar ao seio de todas as camadas. Nesse sentido, compartilho do ideal do meu irmão porque me parece coerente nos tempos que estamos vivendo, uma época em que tanto se luta pela igualdade, não a discursiva ou aquela que pretende impor-se como lei e que, na verdade, não se aplica. Oferecer entrada franca nas galerias oportuniza visita e apreciação sem ter que comprar necessariamente, o público precisa conhecer para gostar ou criticar, e inclusive comprar algo que deseje ter, um objeto que de fato possa adquirir com uma proposta de pagamento adequada às suas possibilidades. Falamos tanto de direitos, a arte não tem por que e nem deveria ficar de fora.

Você não vê muito um brasileiro dizer para família ‘hoje vamos todos ao museu’, ou ‘a uma galeria’, mas os shoppings centers estão lotados aos finais de semana. Muitos dos que vem nos visitar não tem dinheiro para comprar, mas dividindo em x meses podem pagar e saem sempre com algo que agradou. Esta é a nossa realidade, eu acredito que o Romero abriu a ideia de que todos podem comprar algum objeto ligado à arte nem que seja um cartão de 10 reais. Eu dizia que vender era fácil, porém, quando se trata de vender objetos como os que estão na galeria, exige sensibilidade e senso prático, uma combinação que não vem pronta, precisa de muita assimilação, experiência, algo que pode levar anos para aprender sobre o quê, o como e por que funciona.

Quais nomes você mais admira no meio artístico (pintura, cinema, teatro e música)?
Meu irmão é claro, e além dele, admiro muito o trabalho do Picasso, Klint, Matisse, mas, meu favorito é o Alexander Calder. Sou eclética, gosto de músicas clássicas, jazz, assistir a boas peças de teatro desde os textos gregos a Nelson Rodrigues, entre tantos atores, cenógrafos, dramaturgos teria que falar de vários, prefiro diretores e roteiristas que fazem filmes como Felinni em seu 8.5 como o inesquecível Marcello Mastroianni e não poderia esquecer de lembrar da boa safra de brasileiros nestes últimos anos.

Vamos ao momento bate-volta-rapidinho!
Um sonho... Realização profissional, montar uma comunidade para artistas carentes.
Um defeito... Começo e fim, não quero saber muito do meio.
Uma ambição... Quero ser reconhecida pelo meu trabalho.
Lugar para viajar... Todos, adoro viajar e ver o mundo, estou em casa onde vou.
Uma qualidade... Generosidade, paciência.
Viver é... Acordar todos os dias e sentir-se viva, com esperança de alegria e realização, amar e perdoar sempre.
Deus... É tudo, uma energia cósmica única e verdadeira, muito amor.
Família... A base de tudo.
Amigos... Provedores de alegria, de cumplicidade, de incentivo.

Defina-se! Roberta Britto, vixe, é mesmo superação. Olhando o caminho percorrido, consigo enxergar o valor da minha existência, o que a faz valer à pena. Embora, como todo mundo, eu também tenha os meus defeitos, uma de minhas qualidades é a minha enorme força de vontade, isso tanto na minha vida pessoal como na minha profissão. Sou firme naquilo que visualizo como um próximo passo. Gosto de ouvir os outros porque se aprende muito com as críticas e os conselhos daqueles que tem algo relevante a dizer sobre você ou sobre o teu trabalho. Coloco a mão na massa literalmente, estou habituada a refletir e tomar decisões sobre questões importantes como as que envolvem o universo de pessoas no complexo mundo da arte. Procuro ser a mesma de quando tudo isso começou, com mais experiência, claro. Continuo bastante tímida e hábitos simples. Estou convencida de que a sabedoria só funciona como sabedoria quando ela caminha lado a lado com a humildade. A felicidade nem sempre está no dinheiro acumulado, a felicidade está no sentir-se realizada. A Galeria Roberta Britto é a sequência natural desta trajetória.

Antes de começar a trabalhar com o meu irmão, já trabalhava. Por muitos anos, fiz de tudo um pouco, participei, por exemplo, de desfiles em Recife e até formei um grupo no Ceará. Em Miami, desfilei com a Absolut Vodka, também fiz faxina e trabalhei de babá. Depois, comecei a ajudar na parte financeira da carreira artística do Romero. Foi assim que me iniciei no campo da venda de arte. Como resultado de minhas negociações, passei a viajar e a fazer projetos para o meu irmão, como por exemplo, uma exposição no MNBA Rio, uma exposição na galeria da Regina Boni em São Paulo e inclusive em um escritório de Arquitetura em Alagoas, enfim, vendas e projetos. Logo depois, passei a ocupar o cargo de Diretora Executiva na galeria, neste meio tempo também administrava a parte das vendas, a parte da molduraria, das entregas, cuidava de tudo. Quando falo cuidava parece tão pouco e insignificante, mas eu era quem administrava tudo e todos, uma tremenda responsabilidade.

Confira exposição na Galeria de Arte Romero Britto em São Paulo

Fotos: Ricardo Cardoso

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade